A amizade adulta também precisa de cuidado

 

Quando éramos mais novas, amizade acontecia quase sozinha.

A gente se via na escola, na faculdade, no trabalho, na rua. Passava horas juntas sem precisar consultar quatro agendas, dois calendários e a escala de trabalho do marido de alguém.

Depois a vida adulta chegou. Trabalho. Relacionamento. Filhos. Casa. Contas. Pais envelhecendo. Cansaço.

E aquela amiga com quem você conversava todos os dias passa a receber uma mensagem sua a cada três semanas:

“Amiga, desculpa o sumiço. Tá uma loucura aqui.”

Ela responde:

“Relaxa, aqui também.”

E vocês marcam de se encontrar.

Em 2028.

Às vezes ninguém brigou

Acho importante falar disso porque nem toda amizade que se distancia terminou.

Às vezes ninguém fez nada. Ninguém traiu. Ninguém decepcionou.

A vida simplesmente foi ocupando todos os espaços disponíveis.

Uma teve filho. Outra mudou de cidade. Uma começou um trabalho novo. 

Outra terminou uma relação. Uma está cuidando dos pais. Outra está tentando cuidar de si.

E quando percebemos, passaram meses.

Isso não significa necessariamente que o afeto acabou.

Mas significa uma coisa menos romântica:

afeto sozinho nem sempre mantém uma amizade presente.

“A gente se fala qualquer dia” é primo do “vamos marcar”

Todo mundo sabe o que “vamos marcar” significa na vida adulta.

Significa:

gosto muito de você e sinceramente espero que algum fenômeno astronômico alinhe nossas agendas.

Porque se depender de “quando der”, talvez não dê.

Amizade adulta às vezes precisa de uma coisa profundamente sem graça chamada organização.

Mandar mensagem. Marcar uma data. Remarcar. Marcar de novo. Colocar na agenda.

E entender que um café de uma hora pode ser mais realista do que aquele fim de semana maravilhoso que vocês tentam organizar há dois anos.

Talvez não seja espontâneo como antes. Mas pode continuar sendo verdadeiro.

Também precisamos parar de medir amizade pela frequência

Tem amigas com quem você conversa todos os dias.

E amigas que passam meses sem aparecer e, quando vocês se encontram, parece que a conversa só ficou pausada.

Uma coisa não é necessariamente melhor que a outra. A vida adulta pede formatos diferentes.

Nem sempre conseguimos acompanhar cada detalhe. Às vezes você vai descobrir uma novidade importante três semanas depois. Vai esquecer uma data.

Vai responder mentalmente uma mensagem e perceber seis dias depois que, infelizmente, responder mentalmente ainda não envia nada pelo WhatsApp.

Acontece.

O importante talvez seja perceber se existe reciprocidade ao longo do tempo.

Não uma contabilidade exata de quem mandou mensagem por último.

Mas a sensação de que ambas ainda estão ali.

Só que compreensão não pode virar abandono permanente

Existe uma diferença entre uma amizade que atravessa fases silenciosas e uma relação em que só uma pessoa tenta manter tudo vivo.

Se é sempre você quem procura, convida, pergunta, lembra, insiste e atravessa a cidade, talvez seja justo perceber isso também.

Adultos são ocupados. Mas amizade precisa de algum movimento dos dois lados.

Nem sempre na mesma quantidade. Nem ao mesmo tempo.

Uma pode carregar mais durante uma fase difícil da outra. Depois isso muda.

É justamente essa flexibilidade que torna algumas amizades tão bonitas.

Não é 50% todos os dias. É reciprocidade ao longo da história.

Amizade também é uma forma de intimidade

Talvez por isso algumas perdas de amizade doam tanto. A amiga conheceu versões suas que ninguém mais conheceu. Sabe quem você namorou e não deveria ter namorado.

Lembra daquele corte de cabelo que ambas concordaram em nunca mencionar novamente.

Conheceu você antes dos filhos, antes do casamento, antes do divórcio, antes daquela carreira, antes de você aprender algumas coisas e desaprender outras.

Amigas são testemunhas da nossa vida. E, conforme envelhecemos, isso fica ainda mais precioso. Porque encontrar alguém novo é maravilhoso.

Mas existe algo muito particular em sentar diante de uma pessoa que consegue olhar para você hoje e ainda enxergar todas as mulheres que você já foi.

Talvez cuidar não precise ser grandioso 

Pode ser mandar um:

“Lembrei de você.”

Um áudio no carro. Uma foto idiota. Um café rápido.

Perguntar como foi aquela consulta que ela comentou duas semanas atrás.

Aparecer quando a coisa aperta. Comemorar quando dá certo. E, de vez em quando, ultrapassar o eterno:

“Precisamos nos ver.”

e mandar:

“Quinta, 19h. Pode?”

Porque a vida adulta vai continuar cheia

Talvez nunca chegue aquela fase mágica em que todas teremos tempo sobrando, a casa organizada, filhos independentes, trabalho tranquilo e energia social abundante.

Se esperarmos essa fase para cuidar das nossas amizades, podemos esperar bastante.

Algumas amizades sobrevivem a longos silêncios. Outras precisam de mais presença. Cada relação encontra seu ritmo.

Mas talvez valha olhar para aquelas mulheres que fazem a sua vida melhor e não presumir que elas simplesmente saberão disso para sempre.

Às vezes é bom dizer. Às vezes é bom aparecer. Às vezes é bom marcar a porra do café.

Mesmo que vocês precisem remarcar duas vezes, ou sete.

Tem gente que vale o esforço de continuar encontrando no meio da vida.

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