Eu não sei exatamente em que momento da vida isso aconteceu, mas cancelar um compromisso começou a me dar uma alegria que antigamente eu reservava para coisas muito mais emocionantes.
Sabe quando você tem alguma coisa marcada para sábado e passa a semana inteira sabendo que sábado tem aquilo?
Nem precisa ser algo ruim. Pode ser um aniversário, um jantar, uma visita, um café com alguém de quem você gosta. Na hora em que marcou, inclusive, você queria ir. Achou uma ótima ideia. “Claro! Vamos!”
Essa mulher que aceita compromissos com quatro dias de antecedência tem uma confiança no futuro que eu admiro muito.
Ela realmente acredita que a Juliane de sábado estará disposta a tomar banho, escolher roupa, arrumar o cabelo, sair de casa e conversar com seres humanos.
É muita fé.
Aí chega sábado.
Você acorda, olha para o teto e pensa:
Por que eu fiz isso comigo?
Eu queria ir quando marquei
Essa é uma coisa que eu gostaria que fosse mais compreendida entre adultos: às vezes eu queria genuinamente fazer alguma coisa quando combinei e, quando o dia chegou, genuinamente não quero mais.
As duas coisas podem ser verdade.
Não menti quando aceitei. Não estava sendo falsa. Não criei um plano maquiavélico para cancelar 48 horas depois. Eu apenas fui vítima de uma versão excessivamente otimista de mim mesma.
Ela aparece bastante.
É a mesma mulher que olha para uma semana vazia e pensa: “Nossa, dá para fazer um monte de coisa.”
Não, querida.
Aqueles espaços vazios eram a coisa.
Hoje eu olho para um dia sem nada marcado com um carinho difícil de explicar. Um sábado inteiro sem horário, sem lugar onde preciso estar, sem ninguém esperando que eu apareça às sete e meia é quase um pequeno patrimônio.
Talvez seja porque minha vida já tenha gente demais, coisa demais, responsabilidade demais. Eu tenho cinco filhos. Minha casa dificilmente oferece aquela experiência contemplativa de ouvir o silêncio e se perguntar o que fazer com o próprio tempo.
Então, quando aparece um espaço em que ninguém precisa que eu vá a lugar nenhum, eu olho para ele e penso: não encosta.
É meu.
E aí chega a mensagem dos sonhos
Existe uma mensagem capaz de transformar instantaneamente o clima de uma tarde:
“Amiga, será que podemos deixar para outro dia?”
Nossa.
Podemos.
PODEMOS MUITO.
E aí você responde com a maior dignidade possível:
“Claro, sem problema! ❤️”
Enquanto, por dentro, uma escola de samba atravessa a sala.
E o melhor é quando a outra pessoa também não queria ir.
Porque aí acontece uma espécie de pacto silencioso entre duas mulheres cansadas que marcaram alguma coisa numa fase de entusiasmo e agora receberam de volta as próprias vidas.
Ninguém ficou magoada.
Ninguém precisa inventar que surgiu um imprevisto gravíssimo.
Nós simplesmente reconhecemos que talvez seja melhor cada uma ficar na sua casa de roupa confortável.
Eu gosto desse nível de amizade.
Aliás, talvez uma das intimidades mais bonitas da vida adulta seja poder dizer para alguém:
“Eu gosto muito de você, mas hoje eu queria ficar em casa.”
E a pessoa entender que uma coisa não anula a outra.
Sair de casa virou uma operação
Também existe um detalhe que raramente aparece quando fazemos planos: ir a algum lugar dá trabalho.
Na imaginação, você simplesmente aparece no restaurante.
Na realidade, existe tudo o que acontece antes de aparecer no restaurante.
Precisa terminar o que estava fazendo, tomar banho, decidir o que vestir, experimentar uma roupa, descobrir que não quer aquela, experimentar outra, pensar no cabelo, procurar alguma coisa que misteriosamente desapareceu, organizar o que precisa ficar organizado em casa e calcular a hora de sair.
Quando finalmente fica pronta, você já realizou uma pequena produção executiva.
E aí tem o deslocamento.
E depois você chega.
E muitas vezes é ótimo.
Esse é o mais engraçado.
Eu reclamo para sair, considero cancelar umas sete vezes, vou e depois penso: “Ainda bem que eu vim.”
O que foi?! Eu nunca disse que sou coerente.
Mas existe uma diferença entre saber que provavelmente vou gostar quando chegar e sentir vontade de passar por todo o processo necessário para chegar.
Aos vinte e poucos anos talvez eu precisasse de um motivo para ficar em casa.
Hoje eu preciso de um motivo razoavelmente convincente para colocar sutiã.
A vida muda.
Ficar em casa ficou gostoso demais
Talvez parte do problema seja esse: eu gosto da minha casa.
Gosto de chegar ao fim do dia, sentar no sofá, pegar alguma coisa para comer e assistir a alguma coisa. Gosto de não precisar conversar. Gosto de poder ficar confortável, apagar as luzes, mexer no celular, jogar, ver televisão ou simplesmente existir sem estar apresentável para ninguém.
Isso compete de maneira bastante desleal com muitos convites.
“Quer sair?”
Quero.
Mas você sabe que aqui tem sofá, né?
Não estou dizendo que quero viver isolada numa cabana e receber mantimentos por uma portinhola. Eu gosto de gente. Gosto de conversar, rir, sair(mais ou menos), conhecer lugares, encontrar quem eu amo.
Só passei a gostar também de não ir.
E acho maravilhoso chegar a uma idade em que isso deixa de parecer um defeito de personalidade.
O melhor compromisso às vezes é o que desaparece da agenda
Claro que existem compromissos que não podem ser cancelados só porque bateu preguiça. A vida adulta infelizmente continua insistindo em existir.
Mas nem tudo é obrigação.
Às vezes aquele café pode ser na semana que vem. O jantar pode ficar para outro dia. A visita pode esperar. E ninguém precisa transformar isso numa crise diplomática.
Talvez a gente tenha passado tempo demais associando uma agenda cheia a uma vida interessante.
Hoje eu vejo um espaço vazio na agenda e não penso que está faltando alguma coisa.
Penso que sobrou alguma coisa para mim.
E poucas sensações são tão deliciosas quanto descobrir que aquele compromisso que estava ocupando um pedacinho da sua cabeça o dia inteiro foi cancelado.
De repente, a noite voltou a ser sua.
Você não precisa correr.
Não precisa se arrumar.
Não precisa sair.
Pode colocar uma roupa confortável, aquela camiseta três números maior, surrada, tem um valor inestimável pra mim, procurar alguma coisa gostosa para comer e fazer absolutamente o que quiser.
Ou nada.
Principalmente nada.
Então, se um dia nós marcarmos alguma coisa e você me mandar uma mensagem dizendo que prefere deixar para outro dia, saiba que provavelmente vou responder:
“Ah, que pena. Tudo bem. ❤️”
Mas existe uma possibilidade bastante razoável de eu estar do outro lado da tela pensando:
Graças a Deus.
E já tirando o sutiã.
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