A mulher que você era ainda mora em você




Outro dia ouvi uma música antiga e, por alguns segundos, voltei para uma época inteira.

Não lembrei apenas de um lugar.

Lembrei de quem eu era naquele lugar. Do que queria. De quem amava. Do que achava que jamais suportaria. Das coisas sobre as quais tinha certeza.

Da roupa que usava, das músicas que ouvia, dos planos que fazia.

É estranho perceber quantas mulheres diferentes conseguimos ser dentro de uma única vida. E mais estranho ainda perceber que nenhuma delas desapareceu completamente.

Elas continuam, de algum jeito, morando em nós.

Existe uma versão sua que ainda não sabia

Ela tomou decisões que hoje você talvez não tomasse. Confiou em pessoas em quem hoje não confiaria. Ficou onde você sairia. Saiu de onde talvez hoje ficasse.

Gastou dinheiro errado. Amou errado. Teve medo. Disse sim quando queria dizer não.

Disse não para coisas que hoje gostaria de ter vivido. É muito fácil olhar para ela com os olhos que você tem agora e pensar:

“Meu Deus, mulher. O que você estava fazendo?”

Só existe um pequeno problema nessa análise. 

Você sabe como a história termina.

Ela não sabia.

A gente julga o passado com informações do futuro

É uma injustiça bastante conveniente. 

Hoje você conhece as consequências. Reconhece sinais que naquela época não reconhecia. Tem palavras para coisas que antes eram apenas sensações.

Talvez tenha terapia, livros, experiência, idade, independência ou simplesmente muitos anos de vida a mais.

Ela tinha o que tinha. E fez o que conseguiu com aquilo. Isso não significa transformar toda decisão ruim em decisão boa. Algumas foram péssimas mesmo.

Convenhamos.

Tem versão nossa que merecia um abraço e talvez alguém gentilmente retirando o celular da mão dela. Mas vergonha não precisa ser a única maneira de olhar para trás.

Algumas versões suas salvaram você

Talvez exista uma mulher sua que ficou forte porque não havia outra opção.

Uma que trabalhou demais. Uma que engoliu o choro ou chorou até dormir.

Uma que aceitou menos do que merecia. Uma que se tornou extremamente independente. Uma que aprendeu a não precisar de ninguém.

Talvez hoje você esteja tentando desaprender algumas dessas coisas. Mas houve um momento em que elas serviram. Eu acho bonito reconhecer isso.

Você pode agradecer uma versão sua sem continuar vivendo como ela.

“Obrigada. Daqui eu sigo.”

Outras ficaram esquecidas pelo caminho

Nem todas as versões antigas carregam dor. Tem aquela menina que ria mais alto.

A mulher que gostava de dançar. Que desenhava. Que escrevia. Que passava horas ouvindo música no escuro. Que se arrumava só porque gostava. Que tinha uma curiosidade enorme. Que fazia planos absurdos.

Que acreditava em alguma coisa que, em algum momento, a vida convenceu você a considerar pouco prática.

Talvez amadurecer não seja abandonar todas elas. 

Talvez algumas estejam esperando uma visita.

Às vezes sentimos saudade de quem éramos

E isso pode confundir.

Porque talvez você não queira aquela vida de volta.

Não queira aquele relacionamento. Aquela casa. Aquela idade. Aquelas dificuldades.

Mas sente falta de alguma coisa que existia em você naquela época.

Leveza. Coragem. Espontaneidade. Desejo. Esperança. Tempo. Peitos no lugar.

Talvez a saudade não seja exatamente do passado. Talvez seja de uma parte sua que ficou associada a ele. E essa é uma diferença importante.

Porque você não precisa voltar para recuperar alguma coisa que deixou lá.

Você carrega em si todas as mulheres que já foi

A menina. A adolescente. A mulher apaixonada. A que teve o coração quebrado.

A que começou. A que desistiu. A que insistiu tempo demais. A que finalmente foi embora.

A que se perdeu. A que encontrou alguma coisa. A que achou que não conseguiria.

E conseguiu. 

A que ainda está tentando.

Não precisamos gostar de todas as nossas versões.

Algumas dão um pouco de vergonha alheia mesmo.

Faz parte.

Mas talvez possamos parar de tratá-las como estranhas.

Elas trouxeram você até aqui.

E talvez exista algo profundamente acolhedor em perceber que crescer não exige expulsar de nós quem fomos.

Você pode mudar de opinião, de corpo, de casa, de trabalho, de sonhos, de amor, de prioridades.

Pode olhar para uma fotografia de vinte anos atrás e quase não reconhecer aquela mulher.

Mas ela está aí.

Não comandando sua vida.

Não decidindo seu futuro.

Só fazendo parte da história.

E, de vez em quando, alguma música toca, algum cheiro aparece, alguma fotografia cai na sua mão e ela chega perto outra vez.

Talvez você possa olhar para ela com um pouco menos de julgamento.

E dizer:

“Eu lembro de você.”

“Obrigada por ter me trazido até aqui.”

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