Algumas versões suas já cumpriram o papel delas



Talvez você tenha sido a mulher que aguentava tudo.

A que não precisava de ninguém.

A que evitava conflito.

A que resolvia.

A que fazia piada quando queria chorar.

A que trabalhava até cair.

A que agradava.

A que controlava cada detalhe porque, durante algum tempo, perder o controle parecia perigoso demais.

Talvez essas versões tenham sido necessárias.

Mas necessário uma vez não significa necessário para sempre.

Algumas formas de ser começaram como proteção

Você não acordou um dia e decidiu:

“Vou passar os próximos quinze anos tendo dificuldade para pedir ajuda.”

Algumas coisas foram aprendidas.

Porque funcionaram.

Se depender de alguém trouxe decepção, você aprendeu a fazer sozinha.

Se falar causava problema, aprendeu a ficar quieta.

Se relaxar fazia tudo desandar, aprendeu a controlar.

Se mostrar fragilidade não era seguro, ficou forte.

Essas estratégias podem ter ajudado você a atravessar períodos difíceis.

Por isso não acho justo olhar para elas apenas como defeitos.

Talvez tenham sido soluções.

Só que soluções também vencem.

A armadura pode continuar depois da guerra

Esse é o problema.

A situação muda.

Você muda.

A vida fica diferente.

Mas o corpo e a cabeça continuam respondendo como antes.

Você ainda tenta prever tudo.

Ainda pede desculpas demais.

Ainda se prepara para uma briga que talvez nem venha.

Ainda acredita que precisa merecer descanso.

Talvez uma parte sua ainda esteja protegendo uma mulher que já saiu daquele lugar.

Não precisa odiar quem você foi para deixá-la ir

Eu gosto muito dessa ideia.

Não precisamos olhar para uma versão antiga e dizer:

“Eu era horrível.”

Talvez seja mais gentil dizer:

“Você fez o que sabia.”

E depois:

“Agora eu sei outras coisas.”

Isso muda tudo.

Porque crescer deixa de ser uma guerra contra nós mesmas e vira uma passagem.

Algumas versões suas ainda têm coisas lindas para oferecer.

Outras podem descansar.

A mulher que fazia tudo sozinha pode aprender a pedir.

A que se calava pode falar.

A que sobrevivia pode começar, aos poucos, a viver.

Não porque aquela mulher falhou.

Justamente porque ela conseguiu trazer você até um lugar onde talvez já não precise funcionar do mesmo jeito.

Algumas versões nossas merecem continuar conosco.

Outras merecem finalmente ouvir:

obrigada. Pode descansar agora.

Comentários