Eu já gastei uma quantidade constrangedora de tempo tentando interpretar homem.
Mensagem, silêncio, mudança de tom, demora para responder, frase pela metade, comportamento estranho, aquele “depois a gente vê” que poderia significar absolutamente qualquer coisa. Já reli conversa procurando uma pista que provavelmente não estava lá e já conversei com amiga sobre uma mensagem de três palavras como se estivéssemos analisando um documento encontrado numa investigação criminal.
— Mas olha o jeito que ele escreveu.
— Sim, eu vi.
— Ele nunca coloca ponto final.
— Realmente.
— E hoje colocou.
Pronto. Duas mulheres adultas investigando um ponto final.
E o pior é que, quando a gente gosta, parece que o cérebro desenvolve uma capacidade extraordinária de transformar falta de informação em possibilidades.
Talvez ele esteja confuso. Talvez esteja com medo. Talvez tenha dificuldade de demonstrar. Talvez o último relacionamento tenha deixado marcas. Talvez ele goste de mim, mas esteja assustado com a intensidade do que sente.
Talvez.
Ou talvez ele só não esteja tão interessado assim.
Eu sei. Essa hipótese é muito menos cinematográfica.
A gente é muito criativa quando quer que dê certo
Uma coisa que aprendi sobre mim é que, quando eu quero muito uma resposta específica, fico perigosamente boa em encontrar explicações que me levem até ela.
O homem desaparece por três dias e eu consigo escrever mentalmente uma biografia inteira para justificar.
Ele está trabalhando muito. Está passando por uma fase difícil. É fechado. Precisa do espaço dele. Tem dificuldade de confiar. Não gosta de celular. É praticamente um eremita digital.
Aí você descobre que o eremita digital estava online há onze minutos.
Curioso.
E não estou dizendo que pessoas não tenham fases difíceis, traumas, medos, trabalho, filhos, problemas familiares ou simplesmente maneiras diferentes de se comunicar. Claro que têm. Nós também temos.
O problema começa quando precisamos construir uma tese inteira para explicar por que alguém que supostamente quer estar perto de nós quase nunca parece querer estar perto de nós.
Se você precisa convocar três amigas, abrir os prints e dizer “espera, deixa eu explicar o contexto”, talvez o contexto já esteja trabalhando horas extras.
Já fiz isso.
E, olhando de fora depois, é quase engraçado perceber o quanto eu sabia.
Eu só não gostava da resposta.
O grupo das amigas sabe antes
Amiga tem um negócio irritante: ela costuma enxergar perfeitamente aquilo que você está levando seis meses para admitir.
Você manda o print.
Ela lê.
Fica em silêncio por uns segundos.
Você começa:
— Mas é que você não sabe como ele é pessoalmente...
Pronto.
Ela nem falou nada e você já está defendendo o réu.
E amiga boa ainda tenta ser delicada.
— Ju, eu acho que talvez ele não esteja entregando o mesmo que você.
E você:
— Não, mas ele é complicado.
Essa palavra já explicou muita coisa que provavelmente não precisava de explicação.
Complicado.
Homem complicado é quase um gênero literário.
Ele gosta, mas não demonstra. Quer, mas se afasta. Sente, mas não fala. Tem ciúme, mas não assume. Não quer perder você, mas também não faz exatamente nada para ter você.
É um fenômeno fascinante.
E nós ali, tentando traduzir.
Às vezes eu penso em quantas horas de vida feminina já foram gastas em áudios começando com:
“Amiga, eu não entendo esse homem.”
Provavelmente dava para aprender italiano.
Interesse não precisa parecer uma caça ao tesouro
Com o tempo, comecei a desconfiar de relações que exigem interpretação demais.
Não porque tudo precise ser simples. Relacionamentos são feitos de pessoas, e pessoas são uma bagunça. Às vezes alguém gosta e tem medo. Às vezes se afasta. Às vezes não sabe o que quer. Às vezes realmente existe um momento ruim.
Só que existe uma diferença entre uma pessoa atravessando uma dificuldade e você passar meses tentando encontrar pequenas evidências de que existe alguma coisa ali.
Um coração numa mensagem.
Uma visualização rápida no Stories.
Um “saudades” às onze e quarenta e sete da noite, esse aí a gente já sabe o que significa né?!
Um encontro maravilhoso seguido por cinco dias de silêncio.
E lá vamos nós montar o quebra-cabeça.
Só que relacionamento não deveria vir com manual de criptografia.
Quando alguém quer construir alguma coisa com você, talvez ainda existam dúvidas, falhas e desencontros, mas existe também algo muito menos emocionante e muito mais valioso: consistência.
A pessoa aparece.
Procura.
Conversa.
Combina e tenta cumprir.
Quando erra, consegue falar sobre isso.
Você não precisa sobreviver de migalhinhas emocionais e depois usar uma lupa para provar que eram, na verdade, um banquete.
Às vezes ele realmente não sabe o que quer
E tudo bem.
Essa foi uma coisa importante para mim: perceber que nem sempre existe um vilão.
Às vezes ele não está jogando. Não está manipulando. Não tem um plano secreto. Não é um grande canalha arquitetando maneiras de confundir você.
Às vezes o homem está genuinamente confuso.
Só que a confusão dele não precisa virar um emprego para você.
Você não precisa descobrir o que ele sente antes dele.
Não precisa ter paciência suficiente pelos dois. Não precisa mostrar como vocês seriam bons juntos, esperar ele superar alguma coisa, convencê-lo de que pode confiar em você ou ficar ali sendo maravilhosa até que um belo dia ele acorde, ouça pássaros cantando e perceba:
“Meu Deus. Era ela.”
Bonito.
Também pode nunca acontecer.
E enquanto ele decide se quer, se consegue, se está pronto, se sente, se não sente, existe uma pergunta que durante muito tempo eu esquecia de fazer:
Eu quero viver assim?
Essa pergunta muda bastante a conversa.
Porque de repente deixa de ser apenas sobre descobrir se ele gosta de mim e passa a ser sobre descobrir se eu gosto do que estou recebendo.
Talvez a pergunta esteja errada
A gente pergunta muito:
“Será que ele gosta de mim?”
Hoje acho essa pergunta meio pobre.
Porque alguém pode gostar de você e ainda assim oferecer muito menos do que você precisa. Pode sentir atração, carinho, saudade, desejo e até amor e continuar sendo incapaz de construir uma relação boa com você.
Sentimento sozinho não administra relacionamento.
Então talvez perguntas melhores sejam: eu me sinto tranquila aqui? Existe reciprocidade? Consigo falar sobre o que sinto? As palavras dessa pessoa combinam minimamente com o que ela faz? Estou vivendo uma relação ou esperando que uma relação comece?
E principalmente: eu estou feliz ou estou ocupada demais tentando entender?
Porque tem uma exaustão muito particular em gostar de alguém que mantém você permanentemente em dúvida.
Num dia parece que sim. No outro você já não sabe. Aí acontece alguma coisa boa e você se anima novamente. Depois ele esfria e você volta para a central de investigação.
Amiga, fecha a central.
A gente já trabalhou demais hoje.
Ele pode até ser misterioso. Mas você não precisa virar detetive.
Hoje, se eu preciso interpretar demais, alguma coisa em mim já acende uma luzinha.
Não significa que eu tenha virado uma mulher absolutamente evoluída que jamais se confunde por homem.
Por favor.
Ainda sou uma pessoa.
Se aparecer um “oi, sumida” no momento errado, todos estamos sujeitos às intempéries da vida.
Mas acho que aprendi uma coisa importante: não quero mais precisar imaginar tanto aquilo que alguém poderia simplesmente me mostrar.
Se gosta, que exista alguma coisa concreta para eu perceber.
Se quer estar, que esteja.
Se está confuso, pode se entender.
Se não sabe o que quer, tudo bem.
Mas eu não preciso ficar sentada na sala de espera enquanto ele descobre.
Talvez ele seja complexo. Talvez tenha medo. Talvez tenha sido machucado. Talvez goste de você mais do que consegue demonstrar.
Tudo isso pode ser verdade.
Mas antes de mandar mais dezessete prints para sua amiga e perguntar o que ela acha que aquele “kkkk” quis dizer, talvez valha considerar a explicação menos emocionante.
Amiga, ele talvez não seja tão misterioso assim.
Às vezes a gente só estava tentando encontrar uma resposta diferente daquela que ele já estava dando.
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