Dizer “não” deveria ser relativamente simples.
— Você consegue fazer isso?
— Não.
Fim.
Duas letras. Uma sílaba. Trabalho concluído.
Mas nós conseguimos transformar um não numa defesa de mestrado.
“Então, eu adoraria, de verdade, só que essa semana está meio complicada porque terça eu tenho uma coisa, quarta preciso resolver outra, quinta talvez minha mãe precise de mim e eu também estou um pouco cansada, mas não é nada com você, viu? Inclusive eu queria muito...”
Mulher.
Você só não pode ir ao churrasco.
Ninguém solicitou seu histórico clínico.
A gente explica porque quer que o outro aprove o nosso não
Talvez essa seja a parte mais interessante.
Muitas vezes sabemos dizer não.
O que não sabemos é lidar com a possibilidade de a outra pessoa não gostar do nosso não.
Então tentamos construir uma justificativa tão impecável que ninguém possa contestar.
Apresentamos fatos. Testemunhas. Documentos. Laudo pericial. Imagens das câmeras de segurança.
Tudo para chegar a uma conclusão juridicamente irrefutável:
eu tenho o direito de não querer.
Só que tem uma notícia um pouco desagradável.
Às vezes você pode explicar maravilhosamente e a pessoa ainda assim vai ficar chateada.
E sobreviveremos.
Nem todo não precisa de um motivo grave
Esse também é um costume curioso.
Parece que só podemos recusar alguma coisa quando existe uma razão suficientemente importante.
Doença: aceita.
Compromisso inadiável: aceita.
Emergência familiar: aceita.
“Estou cansada e quero ficar em casa comendo alguma porcaria no sofá”: aparentemente precisamos submeter à comissão avaliadora.
Mas não querer também é informação. Não ter energia é informação. Não estar com vontade é informação. Ter outras prioridades é informação. E algumas vezes você nem precisa informar nada disso.
“Dessa vez não vou conseguir.”
Olha que frase linda. Completa. Elegante. E termina ali.
O problema das explicações demais
Quanto mais você explica, mais material oferece para negociação.
“Não posso porque estou sem carro.”
“Eu te busco.”
“Estou cansada.”
“Você descansa aqui.”
“Tenho coisa para fazer amanhã cedo.”
“Vai embora cedo.”
Pronto.
O teu não virou um problema logístico e a outra pessoa assumiu a missão de solucioná-lo.
Porque você apresentou obstáculos.
Não uma decisão.
É diferente dizer:
“Não vou porque estou cansada.”
e dizer:
“Hoje eu prefiro ficar em casa.”
A primeira frase parece pedir uma solução.
A segunda comunica uma escolha.
Claro que contexto existe
Não precisamos virar pessoas que respondem “não” secamente para tudo e depois fecham a porta na cara dos outros.
Existem relações em que explicar é cuidado.
Há decisões importantes que merecem conversa.
Há pessoas que amamos e para quem queremos contar nossos motivos.
A questão não é abolir explicações.
É perceber quando você está explicando porque quer compartilhar e quando está explicando porque sente que precisa provar que tem autorização para escolher.
São coisas bem diferentes.
E vem a culpa depois
Você finalmente diz não.
Parabéns.
Cinco minutos depois começa:
“Será que fui grossa?”
“Será que ela ficou chateada?”
“Talvez eu pudesse ter ido.”
“Vou mandar uma mensagem explicando melhor.”
Não.
Se afasta desse celular mulher.
Porque aí nasce a tese.
Você manda mais quatro parágrafos, três corações e possivelmente acaba aceitando aquilo que tinha acabado de recusar.
Aprender a dizer não talvez envolva também aprender a suportar alguns minutos de desconforto depois.
Sem correr para consertar uma coisa que talvez nem esteja quebrada.
Um não pode ser gentil e continuar sendo não
“Obrigada por lembrar de mim, mas dessa vez não vou conseguir.”
“Prefiro não.”
“Hoje vou ficar em casa.”
“Não consigo assumir isso agora.”
“Para mim não funciona.”
Sem agressividade.
Sem culpa.
Sem nota de rodapé.
Talvez algumas pessoas estranhem no começo.
Especialmente se estavam acostumadas com uma versão sua que dizia sim e depois ficava puta consigo mesma.
Mas existe uma paz enorme em perceber que você pode ser gentil sem estar permanentemente disponível.
Você não precisa transformar cada limite numa tese.
Às vezes basta uma frase. Não, obrigada. Ponto final.
E, por favor, resista à vontade de colocar três parágrafos depois do ponto.
Força, você consegue.
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