Bonita pra quem?

Bonita pra quem?
Tem dias em que eu me olho no espelho e penso:
“Gostosa.”
Tem outros em que penso:
“Interessante.”
E há aqueles em que o espelho e eu estabelecemos um acordo diplomático de não agressão. Eu não faço perguntas, ele não dá opiniões e seguimos o dia em paz.
A questão é que ser mulher significa conviver com uma quantidade impressionante de informações sobre como deveríamos parecer. Tem sempre alguém disposto a avisar que alguma coisa em nós está grande demais, pequena demais, caída demais, marcada demais, branca demais, escura demais, aparecendo demais ou, aparentemente, precisando de ácido hialurônico.
E eu fico pensando:
Bonita pra quem, exatamente?
Porque talvez essa seja uma informação importante antes de começar a reforma.

Alguém decidiu que isso era feio.
Outro dia você estava vivendo tranquilamente com uma parte do seu corpo. Nem pensava nela. Ela existia ali, cumprindo suas funções, sem causar problemas administrativos.
Até que aparece um vídeo:
“3 sinais de que você está envelhecendo sem perceber.”
Amiga, eu estava percebendo. Tenho uma certidão de nascimento, bem amarela já, por sinal.
Mas aí a mulher do vídeo aponta para um lugar tão específico do rosto que você precisa correr até o espelho para descobrir se tem aquilo.
E tem.
PUTA QUE PARIU.
Você tinha um defeito e nem sabia.
Que irresponsabilidade.
Agora precisa de um sérum de R$ 289 para uma região do corpo que, até anteontem, nem tinha nome.
A indústria da beleza tem um talento extraordinário pra encontrar novas áreas de preocupação. Quando achávamos que já tínhamos dado conta de cabelo, pele, barriga, bunda, peito, celulite, estria, unha e sobrancelha, alguém olhou para uma mulher e pensou:
“Ainda tem pedaço dela em paz.”
E isso, evidentemente, precisava acabar.
“Mas eu gosto de ficar bonita!”
Eu também.
Gosto de roupa bonita. Gosto de cabelo arrumado. Gosto de perfume, creme, maquiagem — às vezes, podem me julgar, e unha feita— bem mais às vezes ainda. Sou mãe de cinco e não tenho lava-louças, qual é?
E gosto especialmente daquele raro fenômeno em que você se arruma, olha no espelho e pensa:
“Caralho, hoje eu tô bonita.”
E sai de casa até andando diferente.
Não quero transformar vaidade em problema.
Aliás, acho meio chato quando toda conversa sobre beleza termina numa tentativa de convencer mulheres de que aparência não importa.
Importa sim.
Só não precisa importar o tempo inteiro, do mesmo jeito e para todo mundo.
Tem mulher que ama maquiagem. Tem mulher que odeia — eu acho que tô entre os dois.
Tem mulher que quer envelhecer sem mexer em absolutamente nada. Tem mulher que pretende chegar aos 80 com procedimentos, cílios, unha vermelha e um dermatologista nas conversas fixadas no WhatsApp.
Tem mulher que gosta do cabelo grisalho. Outra olha para o primeiro fio branco e já está abrindo a caixa de tinta no banheiro.
E está tudo bem.
O problema começa quando a gente já nem sabe mais se está fazendo alguma coisa porque gosta ou porque recebeu a informação de que, sem aquilo, deveria se sentir inadequada.

Tem beleza que só existe porque alguém inventou a regra
Quer um exemplo maravilhoso?
Pelo.
Antes que alguém entenda errado: não estou iniciando a Revolução do Sovaco Livre nem propondo que amanhã todas nós saiamos por aí parecendo o King Kong.
Eu mesma não consigo.
Tiro os meus pelos e provavelmente continuarei tirando. Fui criada dentro dessa cultura também, minha gente. Não vou escrever um manifesto sobre libertação feminina e aparecer amanhã de regata com a axila balançando ao vento só para manter coerência editorial.
Não dou conta.
Mas é justamente aí que a coisa fica interessante.
Mulheres removem pelos há séculos, em diferentes culturas. O que se consolidou muito mais recentemente foi essa associação quase automática entre mulher bonita, feminina, limpa, bem-cuidada e mulher sem pelos.
No começo do século XX, conforme as roupas femininas passaram a deixar mais pele à mostra, a indústria percebeu uma oportunidade. Em 1915, a Gillette lançou a Milady Décolletée, uma lâmina de segurança desenvolvida especificamente para mulheres. Na mesma época, a publicidade ajudava a apresentar os pelos femininos como indesejáveis, pouco delicados e incompatíveis com a imagem da mulher moderna. 
Pensa na genialidade comercial da coisa:
Você tem pelo.
Agora o pelo é um problema.
Que coincidência: temos exatamente o produto que resolve.
É quase bonito.
Capitalisticamente falando.
E funcionou tão bem que, mais de cem anos depois, eu posso conhecer essa história, entender como esse padrão foi construído, saber racionalmente que pelo é só pelo e ainda olhar para a minha própria perna cabeluda e pensar:
“Deus me livre.”
E não estou dizendo que deveríamos abandonar lâmina, cera, laser e sair todas felizes e peludas por aí. Faça o que quiser com seus pelos. Eu vou continuar tirando os meus.
A questão é perceber como uma característica absolutamente normal do corpo pode virar um problema — e como é conveniente quando alguém já tem a solução para vender.
Aliás, não tem como vencer esse jogo porque o jogo precisa continuar mudando.
Sobrancelha finíssima. Depois grossa. Bunda pequena. Depois grande. Cabelo liso. Depois ondas. Depois cachos. Até o formato da unha entra e sai de moda.
A unha.
Um pedaço de queratina na ponta do dedo está sujeito às tendências internacionais.
Se amanhã todas nós acordássemos completamente satisfeitas com a própria aparência, uma quantidade considerável de empresas entraria em reunião de emergência antes do almoço.
Alguém precisaria descobrir urgentemente uma nova pelanca.
E descobriria.

E bonita pra homem ou mulher?
Ah.
Aqui a conversa fica divertida.
Porque às vezes passamos meia hora decidindo se determinada roupa “valoriza o corpo” para chegar perto de uma garota ou de um homem cuja rotina de beleza talvez consista em passar o mesmo sabonete na cara, no sovaco e, provavelmente, na bunda.
Talvez possamos diminuir um pouco a pressão.
E nem estou dizendo que homem não percebe beleza. Percebe, claro. Mulheres também percebem.
Estou dizendo que talvez tenhamos superestimado dramaticamente o nível de auditoria.
Você preocupada porque sentou e apareceu uma dobrinha na barriga.
A outra pessoa provavelmente pensando:
“Humm, que peitos!”
Fim do relatório.
E, sinceramente, ainda que alguém prefira mulheres mais magras, mais gordas, mais novas, mais velhas, loiras, morenas, musculosas, delicadas, altas, baixas ou mulheres que façam parada de mão enquanto recitam Fernando Pessoa...
Tudo bem.
As pessoas têm preferências.
A questão é: desde quando o gosto de outra pessoa virou edital para o nosso corpo?

Tem coisa que eu faço porque eu gosto mesmo
Essa talvez seja a parte mais gostosa de ficar bonita: quando você tira a plateia.
A roupa que você usa porque adora como fica. O perfume que passa mesmo quando vai ficar em casa. O batom que faz alguma coisa inexplicável com seu humor. A lingerie bonita que ninguém vai ver. O cabelo que você finalmente cortou daquele jeito porque você queria.
Tem uma diferença enorme entre se arrumar pensando:
“Espero que me achem bonita.”
e:
“Eita! Eu tô uma delícia hoje.”
Pode acontecer junto? Claro.
Não precisamos fingir que somos criaturas espiritualmente evoluídas que jamais desejam um elogio.
Eu gosto quando me acham bonita.
Obrigada. Continuem.
Só não quero precisar de uma assembleia aprovando minha aparência antes de sair de casa.

E tem dia que eu não me acho bonita
Tem dia que o cabelo não colabora, a roupa não encaixa como você queria, a pele está estranha e alguma coisa no espelho simplesmente não conversa com a imagem que você tinha na cabeça.
Acontece.
Talvez você não precise imediatamente iniciar uma investigação sobre autoestima.
Talvez seja só uma terça-feira ruim de cabelo.
Amanhã melhora. Ou você prende. Também funciona.
Nem todo dia precisamos nos olhar no espelho e experimentar uma explosão de amor pelo próprio reflexo. Acho até uma meta meio cansativa.
Tem dia que eu me acho linda.
Tem dia que normal.
Tem dia que penso:
“Bom... é isso que temos pra hoje.”
E vou viver.
Porque aparentemente existe uma vida inteira acontecendo do lado de fora do espelho.

Então... bonita pra quem?
Talvez para você.
Talvez para alguém que você deseja.
Talvez para todo mundo numa festa porque hoje você está particularmente maravilhosa e seria desperdício não reconhecer.
Talvez para ninguém.
Tem dias em que ser bonita nem precisa entrar na programação.
E talvez essa seja uma das coisas mais libertadoras da beleza: ela pode ser brincadeira.
Você muda o cabelo. Passa batom. Coloca um vestido. Tira o vestido. Faz procedimento. Não faz. Usa salto. Usa chinelo. Envelhece. Muda de ideia. Se monta inteira para ir jantar ou passa o domingo parecendo uma sobrevivente de naufrágio.
O corpo continua sendo seu durante todas essas versões.
Então, antes de comprar o próximo produto destinado a corrigir uma parte de você que até cinco minutos atrás estava vivendo tranquilamente, talvez valha uma pergunta:
Bonita pra quem?
Se a resposta for “pra mim”, perfeito.
Se for “porque eu quero”, melhor ainda.
Agora, se você precisar pensar demais para descobrir quem exatamente está exigindo aquilo...
Talvez essa pessoa nem esteja no banheiro com você.
E aí ela que se foda.

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