Eu gosto de dinheiro.
Pronto. Falei.
Não precisei respirar fundo antes, explicar que dinheiro não é tudo, dizer que saúde é mais importante nem acrescentar que as melhores coisas da vida não têm preço. Eu sei de tudo isso. Continuo gostando de dinheiro.
Gosto do que ele compra, obviamente. Gosto de viajar, de comer bem, de entrar numa loja e poder escolher alguma coisa porque gostei, e não porque era a única que cabia no orçamento. Gosto de uma casa bonita, de conforto, de roupa boa, de perfume, de hotel, de pedir comida quando não quero cozinhar e da possibilidade quase erótica de olhar uma conta chegando e pensar: “Tá. Eu posso pagar.”
Mas, principalmente, gosto do que o dinheiro pode proporcionar antes mesmo de comprar qualquer coisa: escolha.
E talvez seja justamente aí que a conversa fique mais interessante.
Dinheiro não compra felicidade. Mas compra um bocado de coisa que ajuda.
Existe uma certa elegância social em dizer que dinheiro não importa muito. É uma frase bonita. Especialmente quando dita por alguém que tem dinheiro suficiente para não precisar pensar nele o tempo todo.
Porque a falta de dinheiro ocupa espaço pra caralho.
Ela entra no supermercado com você. Senta à mesa quando chega uma conta. Participa das decisões sobre trabalho, saúde, filhos, casa, transporte, descanso e futuro. Faz você calcular antes de aceitar um convite, adiar uma compra necessária, torcer para determinado eletrodoméstico aguentar mais seis meses e desenvolver uma intimidade impressionante com a data de fechamento do cartão.
Dinheiro talvez não compre felicidade, mas pode pagar uma consulta, uma passagem de avião, uma cama confortável, uma terapia, um curso, uma babá, um remédio, uma máquina de lavar, uma diarista, uma comida que você não precisou preparar.
Pode comprar tempo.
Pode comprar descanso.
Pode comprar privacidade.
Pode comprar a possibilidade de sair de alguns lugares.
Isso não é pouca coisa.
Eu tenho dificuldade com a ideia de romantizar a falta de dinheiro como se viver com pouco fosse automaticamente mais puro, profundo ou espiritualmente elevado. Há pessoas felizes com pouco e pessoas miseráveis com muito. Claro. O dinheiro não instala caráter junto com o aplicativo do banco.
Mas pobreza também não vem acompanhada de sabedoria ancestral no pacote.
Às vezes falta dinheiro e é só uma merda mesmo.
Mulher gostar de dinheiro ainda incomoda um pouco
Existe também alguma coisa curiosa na maneira como mulheres foram ensinadas a falar sobre dinheiro.
Podemos querer uma carreira que nos realize. Um trabalho com propósito. Independência. Reconhecimento. Impacto.
Agora experimente dizer:
“Eu quero ganhar muito dinheiro.”
Parece que ficou meio feio, não ficou?
Como se fosse necessário acrescentar rapidamente uma justificativa nobre. Quero ganhar muito dinheiro para dar uma vida boa aos meus filhos. Quero prosperar para ajudar outras pessoas. Quero ter abundância para cumprir minha missão.
Tudo isso pode ser verdade.
Mas e se eu também quiser dinheiro porque é gostoso ter dinheiro?
Porque quero uma casa linda. Porque quero viajar. Porque quero comprar uma bolsa sem fazer uma reunião extraordinária comigo mesma. Porque quero escolher o vinho pelo vinho e não pela etiqueta amarela da promoção. Porque quero entrar no mercado e colocar morango no carrinho sem pensar: “Caralho, desde quando morango virou artigo de luxo?”
Não acho que todo desejo precise apresentar certificado de utilidade pública.
Durante muito tempo, dinheiro significou poder de uma maneira particularmente concreta para as mulheres. Ter renda própria significava — e ainda significa para muitas — poder tomar decisões que seriam muito mais difíceis sem ela.
Então talvez querer dinheiro não seja uma frivolidade tão grande assim.
Às vezes é querer margem.
Eu quero o dinheiro e quero aproveitar o dinheiro
Também não quero transformar essa conversa numa ode à produtividade.
Porque existe outra armadilha esperando logo ali: a mulher finalmente decide que quer dinheiro e imediatamente ganha um plano de negócios, uma rotina às cinco da manhã, sete fontes de renda, uma carteira de investimentos e uma obrigação moral de monetizar até o hobby que fazia para descansar.
Calma.
Eu quero dinheiro. Não quero virar uma corporação.
Quero construir, ganhar, guardar, investir e fazer escolhas melhores, sim. Mas também quero gastar uma parte sem sentir que cometi um crime contra a minha aposentadoria.
Tem dinheiro que vai para o futuro.
E tem dinheiro que precisa melhorar um pouco a terça-feira.
Pode ser uma viagem. Um jantar. Um vestido. Flores para casa. Uma massagem. Um livro. Um sofá melhor. Um café caro que objetivamente poderia ser feito em casa por uma fração do preço.
Eu sei.
Mas eu não queria o café de casa.
Queria aquele.
A vida financeira precisa caber na vida. E uma vida inteira baseada apenas em acumular para algum dia finalmente poder viver me parece uma maneira bastante sofisticada de continuar adiando prazer.
Dinheiro também é liberdade de dizer “não”
Talvez essa seja a parte de que eu mais gosto.
Dinheiro permite alguns “nãos” que ficam muito mais difíceis quando não existe alternativa.
Não aceitar qualquer trabalho.
Não permanecer numa situação apenas porque você depende financeiramente dela.
Não precisar pedir autorização para comprar uma coisa para si.
Não suportar determinadas condições porque perder aquela renda significaria não conseguir pagar o básico.
Não precisar explicar cada gasto.
Não precisar escolher sempre a opção mais barata.
Dinheiro não elimina vulnerabilidade, não protege de todas as dores e certamente não resolve a vida. Gente rica também sofre, perde pessoas, se divorcia, adoece, se decepciona e chora no banheiro.
Mas é bem diferente chorar no banheiro preocupada com a vida e chorar no banheiro preocupada com a vida e com o aluguel vencendo amanhã.
Podemos admitir isso sem transformar dinheiro em deus.
Eu não quero que ele seja o centro da minha existência. Quero justamente o contrário: dinheiro suficiente para que ele não precise ocupar meus pensamentos o tempo inteiro.
Quero poder cuidar do presente e pensar no futuro. Quero segurança e quero prazer. Quero guardar e quero gastar. Quero responsabilidade sem transformar cada desejo numa culpa.
Quero ter escolha.
E sim, quero algumas coisas bonitas também, porque ninguém é de ferro.
Então não vou fingir desapego para parecer mais profunda.
Eu gosto de dinheiro. Pronto.
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