Eu não quero evoluir hoje. É isso, falei.


Tem dias em que eu quero evoluir. Quero ler, aprender, melhorar, organizar minha vida financeira, cuidar do corpo, trabalhar minhas questões emocionais, rever meus padrões, desenvolver novos hábitos e me tornar uma versão cada vez mais consciente de mim mesma.

Hoje não. Hoje eu só quero existir, deitada de preferência.

Hoje eu quero tomar café, fazer o que precisa ser feito e chegar ao fim do dia sem transformar absolutamente porra nenhuma em oportunidade de crescimento. Porque, sinceramente? Até cansar agora precisa ensinar alguma coisa.

Você não pode simplesmente estar cansada. 

Precisa entender o que o seu cansaço está tentando lhe dizer. 

Não pode ficar irritada. 

Precisa investigar qual ferida foi ativada. 

Não pode terminar uma relação e passar uma semana achando o sujeito um filho da puta. Precisa agradecer pelos aprendizados que aquela conexão trouxe para a sua jornada.

Às vezes o aprendizado é: ele era um filho da puta.

Fim. Podemos seguir?

Em que momento existir virou curso de aperfeiçoamento?

Tudo precisa melhorar. Acorde mais cedo, durma melhor, beba água, medite, leia, treine, invista, aprenda um idioma, organize sua casa, cure sua criança interior, descubra seu propósito de vida, desenvolva inteligência emocional, tenha disciplina.

Melhore sua relação com dinheiro. Melhore sua relação com o corpo. Melhore sua relação com seus pais. Melhore sua relação com a comida. Melhore sua relação com você mesma.

Caralho, eu não posso ter uma relação meia-boca com alguma coisa?

Precisa estar tudo em desenvolvimento? Daqui a pouco vou descobrir que tenho uma relação disfuncional com o escorredor de louça e precisarei fazer um curso de seis módulos para ressignificá-la.

E tem outra: até o descanso foi sequestrado pela indústria do aperfeiçoamento pessoal.

Você pensa: “Hoje eu vou descansar.”

Excelente. Mas aparentemente existe um jeito correto de fazer isso também. Banho relaxante, chá, skincare, respiração consciente, alongamento, diário de gratidão, desconexão digital e sono reparador.

Meu amor, às vezes eu quero me jogar no sofá, comer alguma coisa de procedência nutricional duvidosa e assistir a uma série tão idiota que meus neurônios possam tirar folga também.

Não quero um descanso transformador.

Quero ficar largada!

Nem todo problema precisa virar uma jornada

Tem uma coisa particularmente irritante nessa obrigação de evoluir: ela consegue transformar qualquer merda que acontece numa missão.

Perdeu o emprego? Oportunidade de se reinventar. 

Terminou uma relação? Um chamado para se reencontrar. 

Está perdida? Um convite do universo para olhar para dentro. 

Está sem dinheiro? Talvez seja hora de rever suas crenças sobre abundância.  

Às vezes é.  

Mas às vezes você está sem dinheiro e não está a fim de investigar crenças, valores, bloqueios, padrões familiares, relação com a prosperidade e o escambau pra descobrir onde caralhos está a treta.  

Às vezes você só olha pra conta e pensa: “Porra. Eu precisava era de dinheiro.”

A gente pode deixar algumas coisas serem simplesmente ruins por cinco minutos antes de procurar a borboleta que nasceu daquela experiência?

Porque tem hora que você não quer saber o que aquilo veio ensinar. Você quer sentar e dizer:

“Que merda.”

E alguém responder:

“Pois é. Que merda.”

Sem palestra. Sem podcast. Sem TED Talk. Só solidariedade.

Talvez a gente tenha ficado tão acostumada a procurar significado em tudo que até sofrer simples ficou difícil. Parece que, além de passar pela merda, ainda precisamos sair dela emocionalmente mais sábias, espiritualmente mais evoluídas e, se possível, com uma legenda bonita para o Instagram.

Às vezes eu só quero sair da merda.

O aprendizado pode chegar depois.

Eu também não quero ser minha melhor versão todos os dias

Essa mulher deve estar exausta.

Minha melhor versão acorda cedo, alimenta-se bem, administra as emoções com maturidade, trabalha concentrada, movimenta o corpo, mantém relações saudáveis e provavelmente nunca responde uma mensagem com um simples:

“Tá.”

Não consigo competir com ela diariamente. E, para falar a verdade, nem quero.

Alguns dias eu sou paciente. Em outros, alguém mastiga alto perto de mim e preciso recorrer a toda a minha formação moral para não cometer um crime. Alguns dias quero conversar profundamente sobre sentimentos. Em outros, minha capacidade de elaboração emocional se resume a:

“Sei lá, porra.”

Isso também sou eu.

Talvez uma pessoa inteira seja justamente essa mistura meio bagunçada de versões. A mulher madura e a que perde a paciência. A organizada e a que tem uma cadeira cuja função oficial é acumular roupa. A que sabe exatamente o que quer e a que abre a geladeira três vezes esperando que, na quarta, apareça alguma coisa nova.

Não precisamos transformar toda imperfeição em projeto.

Eu quero melhorar... mas não hoje, só hoje, pode ser ou tá difícil?

Não virei inimiga do desenvolvimento pessoal. Quero aprender, crescer, ganhar mais dinheiro, cuidar da saúde, perceber padrões que me fazem mal e fazer escolhas melhores.

Tem muita coisa em mim que ainda quero transformar.

Só não quero viver permanentemente olhando para mim como um apartamento em reforma.

Sempre uma parede para quebrar, uma instalação para trocar, uma versão para atualizar, uma crença para ressignificar, um trauma para curar e uma nova eu prevista para entrega no próximo trimestre.

Que inferno.

Talvez eu possa gostar um pouco da moradora enquanto a obra ainda acontece.

Porque essa obsessão pela “melhor versão” tem uma armadilha meio cruel: a mulher que você é hoje fica sempre parecendo provisória. Nunca é a versão definitiva. Nunca está boa o suficiente para simplesmente ser vivida. Existe sempre uma mulher futura, mais equilibrada, bonita, saudável, rica, disciplinada e resolvida esperando você finalmente chegar até ela.

Enquanto isso, a mulher de agora fica fazendo todo o trabalho.

Talvez ela mereça um pouco mais de consideração.

Hoje eu quero ser uma pessoa comum

Sem evolução extraordinária. Sem grande descoberta. Sem sair do banho tendo compreendido finalmente a origem de todos os meus padrões afetivos.

Hoje talvez eu trabalhe, coma, converse, dê risada, fique irritada, role o Instagram mais tempo do que deveria e deixe alguma coisa para amanhã.

Talvez eu coma sobremesa sem analisar se estou tentando preencher algum vazio emocional.

Talvez esteja.

Hoje o vazio vai ganhar brigadeiro.

Amanhã a gente conversa.

Porque existe uma diferença entre viver com consciência e fiscalizar a própria existência. E acho que às vezes estamos tão ocupadas tentando nos tornar mulheres melhores que esquecemos de aproveitar a mulher que já está aqui.

Ela não está pronta. Ainda bem.

Está contraditória, aprendendo, acertando umas coisas, fazendo merda em outras e ocasionalmente repetindo um padrão que jurou ter superado.

Humana, portanto.

Amanhã eu evoluo

Talvez.

Amanhã posso acordar inspirada, ler vinte páginas, fazer exercício, organizar minhas finanças, refletir sobre meus comportamentos, beber três litros de água e conversar educadamente com a minha criança interior.

Hoje, porém, ela e eu estamos de folga.

Não quero extrair ensinamento do meu cansaço. Não quero transformar meu mau humor em autoconhecimento. Não quero otimizar meu descanso. Não quero aproveitar melhor meu tempo. E definitivamente não quero me tornar uma versão superior de mim mesma antes de dormir.

Hoje eu só quero viver essa porra desse dia.

Sem transformar cada tropeço em lição, cada descanso em ritual e cada defeito em obra.

Amanhã a gente vê o que precisa melhorar.

Hoje eu quero existir sem me corrigir.

E talvez isso não me faça evoluir absolutamente nada.

Que delícia.

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