Eu não sei se estou ficando mais madura ou simplesmente mais cansada, mas tenho percebido uma coisa: minha paciência para certas situações diminuiu bastante com o passar dos anos.
E eu estou começando a achar isso maravilhoso.
Quando eu era mais nova, gastava uma quantidade impressionante de energia tentando entender gente complicada, manter conversas que já tinham perdido a graça, evitar que alguém ficasse chateado comigo, explicar minhas escolhas e permanecer em lugares onde eu claramente já não queria estar.
Hoje algumas coisas recebem de mim uma análise muito mais sofisticada:
Ah, não. Tô com saco pra isso não.
E sigo a vida.
Não é que eu tenha me tornado uma mulher amarga que odeia pessoas e pretende passar a velhice gritando com crianças que pisarem na minha calçada. Pelo menos ainda não. É só que comecei a perceber que paciência é um recurso limitado e talvez eu tenha passado anos distribuindo a minha para situações que não mereciam nem cinco minutos dela.
Eu já expliquei demais
Essa talvez seja uma das coisas que mais mudaram em mim.
Eu explicava tudo, explicava demais, ainda explico.
Se não queria ir a algum lugar, precisava apresentar uma justificativa suficientemente boa para que a outra pessoa entendesse que minha ausência não significava falta de amor, consideração ou apreço. Se discordava de alguém, tentava explicar meu raciocínio inteiro. Se tomava uma decisão diferente daquela que esperavam de mim, sentia que precisava fazer a pessoa compreender por que aquilo fazia sentido.
Era praticamente uma defesa de tese.
Hoje eu ainda explico quando acho necessário. Conversar é importante, especialmente com quem faz parte da nossa vida. Mas perdi bastante a necessidade de convencer todo mundo.
Às vezes eu não quero ir porque não quero.
Às vezes escolhi assim porque preferi assim.
Às vezes alguém não gostou da minha decisão e... bem, essa pessoa não gostou da minha decisão.
O mundo continuou girando.
Descobrir que alguém pode não entender você e, mesmo assim, você continuar vivendo normalmente é uma liberdade que deveria vir escrita na caixa dos trinta e tantos.
Eu gostaria de ter recebido antes.
Também perdi a paciência para algumas performances
Tem conversa que hoje eu reconheço nos primeiros cinco minutos.
A pessoa não quer conversar. Quer ganhar.
Não está perguntando o que você pensa porque está interessada na resposta. Está esperando uma brecha para explicar por que você está errada. Você responde uma coisa, ela distorce um pouquinho. Você corrige, ela pega outra palavra. Quando percebe, está há quarenta minutos numa discussão que não vai chegar a lugar nenhum.
Antigamente eu ficava.
Hoje começo a sentir uma preguiça física.
Tem uma hora em que penso: você pode ficar com essa discussão. Leva para casa. Coloca numa moldura. Mostra para as visitas. Eu não quero.
E isso vale para um monte de coisa. Indireta em rede social, competição disfarçada de conversa, gente que faz comentário desagradável e depois diz que você não sabe brincar, pessoa que some e volta quando convém, relacionamento que exige interpretação simultânea, amizade em que só um lado procura, gente que trata mal garçom, gente que gosta de humilhar os outros e chama isso de sinceridade...
Nossa.
A lista está crescendo conforme eu envelheço.
Talvez daqui a vinte anos eu tenha três pessoas ao meu redor.
Espero que tragam bolo.
Eu achava que ser madura era aguentar melhor
Por muito tempo associei maturidade a uma capacidade quase infinita de lidar bem com tudo.
Uma mulher madura seria aquela que não se altera facilmente, entende o lado dos outros, sabe conversar, tem paciência, escolhe as palavras certas e consegue administrar conflitos sem perder a elegância.
Bonito.
Só esqueceram de dizer que às vezes a coisa mais madura que você pode fazer é perceber que não quer administrar conflito nenhum.
Tem problema que não é seu.
Tem comportamento que você não precisa corrigir.
Tem pessoa que não precisa ser compreendida em profundidade.
E tem conversa que pode simplesmente acabar.
Isso foi uma descoberta importante para mim porque eu tenho tendência a querer entender. Gosto de saber por que as pessoas fazem o que fazem, de onde vem determinado comportamento, o que aconteceu para alguém agir daquela maneira. Acho interessante. Provavelmente vou continuar sendo assim.
Só aprendi uma diferença que demorou um pouco para entrar na minha cabeça: entender alguém não me obriga a suportar essa pessoa.
Eu posso compreender perfeitamente que alguém teve uma vida difícil e ainda assim não querer que ela transforme a minha numa merda.
Uma coisa não anula a outra.
Meu detector de enrolação melhorou bastante
A idade também traz uma coisa deliciosa: repertório.
Você já viu algumas histórias antes.
Não exatamente iguais, claro, porque a vida gosta de trocar os personagens e mudar a decoração para manter algum suspense. Mas o roteiro começa e você pensa: ah, conheço esse episódio.
Aquela promessa enorme acompanhada de pouquíssima atitude.
A pessoa que sempre tem uma justificativa impecável.
A amizade que só aparece quando precisa.
O homem que diz que “não gosta de rótulos”, mas curiosamente gosta bastante de todos os benefícios que vêm antes do rótulo.
O conhecido que começa a frase com “não quero me meter na sua vida, mas...” e imediatamente se mete na sua vida.
Com vinte anos eu talvez pensasse: vamos ver onde isso vai dar.
Hoje muitas vezes penso: eu sei onde isso vai dar e estou com preguiça de ir até lá.
Isso não significa que eu acerte sempre. Continuo podendo me enganar, confiar em quem não deveria e tomar decisões completamente questionáveis. Ser mais velha não instalou um antivírus emocional no meu cérebro.
Uma pena.
Mas experiência vai deixando algumas placas pelo caminho.
E comecei a prestar mais atenção nelas.
Algumas coisas simplesmente ficaram menos importantes
Talvez essa seja minha parte favorita.
Tem coisas que já me incomodaram muito e hoje mal conseguem terminar o expediente.
O que determinada pessoa pensa da minha roupa. Se alguém acha que eu deveria fazer diferente. A necessidade de parecer sempre educada quando o outro claramente não está fazendo o mesmo esforço. A preocupação de ser considerada antipática porque coloquei um limite.
Ainda me afetam às vezes, claro. Não acordei um belo dia completamente livre da opinião alheia, flutuando acima da sociedade numa nuvem de autoestima.
Mas melhorou.
Muito.
E talvez seja por isso que minha paciência tenha diminuído: algumas coisas deixaram de ser importantes o suficiente para merecer o trabalho que davam.
Eu não quero mais passar duas horas tentando resolver uma situação que daqui a três dias nem deveria estar ocupando espaço na minha cabeça. Não quero ficar remoendo uma frase de alguém que não conhece metade da minha história. Não quero sacrificar minha paz só para preservar a imagem de mulher boazinha, compreensiva e fácil de lidar.
Eu sou fácil de lidar.
Desde que você não seja um saco.
Quero guardar minha paciência para quem importa
Porque eu ainda tenho paciência.
Tenho muita, inclusive.
Tenho para meus filhos — às vezes acaba às 18h37, mas no dia seguinte o estoque costuma ser reposto. Tenho para quem amo, para uma amiga passando por uma fase ruim, para alguém que está tentando de verdade, para conversas difíceis que valem a pena, para erros sinceros e para relações em que existe reciprocidade.
Tenho paciência para ensinar, aprender, ouvir e tentar novamente.
O que mudou foi que comecei a perceber que nem todo mundo merece acesso ao mesmo estoque.
Não quero gastar o melhor de mim tentando convencer alguém que decidiu não me entender. Nem usar minha energia para sustentar relações que só funcionam quando eu cedo. Muito menos passar horas administrando o ego de pessoas que não gastariam cinco minutos pensando no efeito que causam em mim.
Talvez isso seja envelhecer.
Ou talvez seja só cansaço acumulado.
Seja o que for, estou gostando.
Porque existe uma paz enorme em perceber que nem toda provocação exige resposta, nem toda opinião merece explicação e nem toda pessoa precisa continuar tendo acesso a você só porque um dia teve.
Ainda quero ser uma mulher paciente. Quero ouvir antes de julgar, reconhecer quando estou errada, mudar de ideia, tentar compreender e continuar aprendendo sobre mim e sobre os outros.
Só não quero mais confundir paciência com tolerância infinita.
E se a idade estiver realmente me deixando com menos paciência para enrolação, joguinho, grosseria, manipulação, conversa vazia e gente inconveniente...
que venham os próximos aniversários.
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