Existe uma frase que mães dizem baixinho porque parece perigoso dizer alto:
“Eu estou cansada.”
Não cansada dos filhos necessariamente.
Cansada de ser necessária.
De ouvir “mãe” cinquenta vezes.
De decidir.
De lembrar.
De cuidar.
De pensar no jantar enquanto responde uma pergunta, procura uma meia e tenta lembrar se amanhã tinha alguma coisa na escola.
Você pode amar seus filhos de um jeito quase impossível de explicar.
E ainda desejar cinco minutos em que ninguém encoste em você.
As duas coisas cabem na mesma mulher.
Amor não produz energia infinita
Essa conta nunca fez sentido.
Parece que, porque uma mãe ama, deveria cuidar sem se esgotar.
Como se amor substituísse sono.
Descanso.
Silêncio.
Ajuda.
Tempo.
Não substitui.
Você pode fazer alguma coisa por amor e terminar exausta.
Aliás, fazemos isso bastante.
Existe um trabalho que quase ninguém vê
Não é apenas dar banho, comida, levar, buscar.
É lembrar que acabou o shampoo.
Que o tênis está pequeno.
Que precisa levar alguma coisa amanhã.
Que a consulta está marcada.
Que um filho está mais quieto.
Que outro precisa estudar.
Que tem aniversário.
Que a roupa precisa lavar hoje porque amanhã precisa estar seca.
É um computador rodando no fundo da cabeça.
E às vezes ninguém percebe porque tudo aconteceu.
Justamente porque você lembrou.
E tem dias em que você não vai gostar muito da experiência
Isso não é o mesmo que não amar seus filhos.
Pode amar profundamente uma pessoa e não gostar de passar quarenta minutos tentando convencê-la a colocar um sapato.
Pode olhar para aquela criatura que você colocaria a própria vida na frente para proteger e pensar:
meu Deus do céu, cala a boca cinco minutos.
Talvez ninguém coloque essa frase num cartão de Dia das Mães.
Mas suspeito que muita mãe reconheça.
Você continua existindo
Talvez uma das partes mais difíceis da maternidade seja que a mulher não desaparece quando nasce uma mãe.
Ela ainda quer coisas.
Sente falta de coisas.
Tem desejos.
Tem corpo.
Tem limites.
Tem dias ruins.
Às vezes quer companhia.
Às vezes quer ficar sozinha.
Isso não diminui a maternidade.
Só devolve humanidade a ela.
Você não precisa esconder o que sente para provar que ama seus filhos.
O amor não fica menor porque você está cansada.
Talvez fique até mais verdadeiro quando paramos de exigir que ele venha acompanhado de felicidade permanente.
Há dias lindos.
Há dias insuportáveis.
E existem muitos dias absolutamente comuns entre eles.
Tudo isso é maternidade.
E a mulher que está vivendo tudo isso também precisa ser cuidada.
Não depois que todo mundo estiver bem.
Ela também faz parte de todo mundo.

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