Nem toda solidão é ruim

 

Existe uma solidão que dói.

Aquela de precisar de alguém e perceber que ninguém veio. De não se sentir vista, ouvida, escolhida. De olhar ao redor e sentir falta de uma presença que realmente faça diferença.

Essa solidão existe.

Mas existe outra.

Uma que, por fora, pode até parecer igual.

A casa silenciosa.

O celular quieto.

Um café tomado sozinha.

Um sábado sem planos.

Só que, por dentro, alguma coisa é diferente.

Você não está abandonada. Está consigo.

E talvez a gente tenha aprendido tão pouco sobre essa diferença que qualquer silêncio começa a parecer ausência.

Estar sozinha nem sempre significa estar faltando alguém

Parece que precisamos justificar muito a própria companhia.

Se uma mulher vai sozinha ao cinema, alguém pergunta por quê.

Se viaja sozinha, “que coragem”.

Se almoça sozinha, parece que alguma coisa aconteceu.

Se passa o fim de semana em casa sem ver ninguém, logo surge:

“Mas você está bem?”

Às vezes não.

Mas às vezes está ótima.

Talvez ela só queira comer alguma coisa gostosa, assistir a uma série, colocar uma roupa confortável e passar algumas horas sem precisar conversar, explicar, cuidar, responder ou negociar o controle remoto.

E isso não é necessariamente tristeza.

Pode ser descanso.

Talvez o silêncio pareça estranho porque estamos acostumadas ao barulho

Existe uma diferença enorme entre isolamento e solitude.

No isolamento, você gostaria de alcançar alguém e não consegue.

Na solitude, existe escolha.

Você pode amar pessoas profundamente e ainda precisar ficar um pouco longe delas.

Pode ter filhos, companheiro, família, amigos e mesmo assim sentir falta de algumas horas em que ninguém precise de você.

Aliás, dependendo da fase da vida, ficar sozinha por duas horas pode parecer praticamente um retiro espiritual.

Não porque você deixou de amar ninguém.

Mas porque estar disponível o tempo inteiro também cansa.

Às vezes o silêncio é o lugar onde finalmente conseguimos ouvir o que estava sendo abafado pelo resto.

Também existe uma solidão que acontece acompanhada

Talvez essa seja uma das mais difíceis.

Você pode estar numa mesa cheia e se sentir completamente sozinha.

Pode dormir ao lado de alguém e sentir uma distância enorme.

Pode ter centenas de contatos, grupos, notificações e pessoas acompanhando cada detalhe da sua vida — e ainda assim sentir que ninguém realmente sabe como você está.

Por isso quantidade de companhia nunca foi uma medida muito confiável para solidão.

Há presenças que acolhem.

Há presenças que ocupam espaço.

E existem momentos em que a nossa própria companhia é mais gentil do que algumas companhias que mantemos apenas para não ficarmos sozinhas.

Aprender a ficar consigo muda algumas escolhas

Quando a solidão deixa de ser algo que precisamos evitar a qualquer custo, uma coisa interessante acontece:

ficamos um pouco mais seletivas.

Talvez você pare de sustentar uma amizade que só existe porque é antiga.

Talvez deixe de correr atrás de quem oferece migalhas de atenção.

Talvez consiga sair de uma relação em que se sente sozinha há anos.

Porque existe uma diferença importante entre:

“Eu quero você na minha vida.”

e

“Eu preciso que você fique porque tenho medo de estar sozinha.”

A primeira aproxima. A segunda aprisiona.

Sua própria companhia também pode ser um lugar

Talvez no começo ela seja estranha.

Você pega o celular sem perceber. Procura alguma coisa para assistir. Manda mensagem. Abre uma rede social. Fecha. Abre outra.

Qualquer coisa para preencher o espaço.

Mas, aos poucos, talvez descubra pequenas coisas.

O jeito que você gosta de tomar café.

A música que coloca quando ninguém está ouvindo.

O passeio que prefere. O silêncio que faz bem.

As coisas sobre as quais pensa quando ninguém está dizendo o que deveria pensar.

E talvez descubra também que gostar da própria companhia não significa querer viver sem ninguém.

Muito pelo contrário.

Quando ficar sozinha deixa de ser assustador, companhia pode voltar a ser escolha.

E isso muda a qualidade das pessoas que deixamos entrar na nossa vida.

Há dias em que a solidão pesa e precisamos procurar alguém.

Há dias em que o silêncio cura.

Saber reconhecer a diferença talvez seja uma das formas mais bonitas de intimidade que podemos construir conosco.

Porque nem toda casa silenciosa está vazia.

Às vezes tem alguém ali.

Você.

E isso também é presença.

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