Eu gosto de aprender.
Na verdade eu amo.
Gosto daquela sensação de perceber alguma coisa sobre mim que eu ainda não tinha percebido, de mudar uma opinião, abandonar um comportamento que já não combina comigo, descobrir uma maneira melhor de fazer alguma coisa. Gosto de olhar para mim e sentir que hoje sou um pouquinho melhor do que fui ontem.
E nem estou falando de ser melhor só para os outros.
É para mim.
Por mim.
Não tenho interesse nenhum em disputar campeonato de evolução pessoal. Não preciso que ninguém olhe para mim e pense “nossa, como ela evoluiu”. Quero deitar a cabeça no travesseiro e gostar cada vez mais da mulher que mora aqui dentro.
Então não, eu não estou de saco cheio de aprender. Muito menos de evoluir.
O que me tira profundamente do sério — num nível que alcança os últimos fios de cabelo da minha cabeça — é um filho da puta fazer merda comigo e depois querer me dar lição de moral sobre como eu deveria viver.
Aí nós temos um problema.
Eu aceito aprender. Só não aceito qualquer professor.
Tem uma diferença enorme entre aprender com uma experiência e aceitar que a pessoa que causou a experiência se coloque na posição de ensinar alguma coisa para você.
Eu posso olhar para uma relação que deu errado e aprender muito sobre mim. Posso perceber onde ignorei sinais, onde ultrapassei meus próprios limites, o que aceitei por tempo demais, o que idealizei e o que jamais aceitaria novamente.
Isso é meu.
É uma elaboração minha sobre a minha própria vida.
Agora, quando alguém mente, manipula, machuca, desrespeita e depois resolve explicar como eu deveria ter agido melhor...
Ah, meu amor.
Aí não.
O sangue ferve.
Existe um tipo de pessoa que tem uma capacidade impressionante de provocar o incêndio e, enquanto você ainda está tentando apagar as chamas, aparecer com uma prancheta para avaliar sua técnica de combate ao fogo.
Você reage ao que ela fez e, de repente, o assunto já não é mais o que ela fez.
É o seu tom.
A sua reação.
A palavra que você usou.
A maneira como você respondeu.
O fato de você estar nervosa.
E pronto: em algum momento dessa conversa completamente maluca, você se vê explicando por que ficou magoada para a mesma pessoa que fez a coisa que magoou você.
Isso me irrita num nível quase artístico.
Não venha me ensinar a reagir à merda que você fez
Eu acho maravilhoso receber conselho de quem eu respeito.
Aliás, gosto de gente que me faz pensar. Gosto de conversar com alguém e sair dali levando uma pergunta comigo. Gosto quando uma amiga enxerga uma coisa que eu não estava enxergando e fala com carinho: “Ju, olha isso aqui.”
Posso discordar. Posso até ficar meio puta na hora. Mas penso.
Porque existe afeto ali. Existe respeito. Existe interesse genuíno em mim, e não em vencer uma discussão.
Outra coisa completamente diferente é alguém fazer algo que me machuca e depois tentar controlar também como eu tenho permissão para reagir ao que ele fez.
Você pode me ferir, mas eu preciso responder com elegância, ah, vai se foder, caralho dos infernos!.
Pode mentir, mas eu não deveria me alterar e ainda acreditar que fui a culpada pela mentira.
Pode me provocar durante horas, mas, se em algum momento eu levantar a voz, veja só: agora temos um problema com o MEU comportamento.
É quase genial.
A pessoa pisa no seu pé e, quando você grita, pergunta por que você é tão agressiva.
E, se você não estiver atenta, daqui a pouco está pedindo desculpa pelo grito enquanto ela continua em cima do seu pé.
Com o tempo, comecei a perceber o quanto isso é diferente de aprendizado. Aprendizado amplia. Faz pensar. Dá liberdade para escolher diferente da próxima vez.
Controle faz o contrário. Ele diminui você até que comece a desconfiar da própria percepção, da própria sanidade.
Por isso, quando alguém que acabou de me desrespeitar começa a explicar como eu deveria me comportar, alguma coisa dentro de mim pensa:
Você não vai ser o professor dessa aula. Mentira, mentalmente já tô mandando o Alecrim dar o cool pro capeta, com aquela linda cara de paisagem.
E ainda tem o “você deveria agradecer”
ou o bastante comum por aqui "você deveria ver isso como um aprendizado!"
Essa é outra coisa que me dá uma coceira na alma.
A ideia de que toda pessoa que nos fez mal merece algum tipo de agradecimento porque, afinal, “nos ensinou alguma coisa”.
Não.
Eu posso ter aprendido apesar de você.
É diferente.
Talvez eu tenha ficado mais atenta depois de conhecer um lacaio do diabo. Talvez tenha aprendido a reconhecer determinados comportamentos mais cedo. Talvez tenha descoberto limites que antes não sabia colocar e entendido coisas sobre mim que jamais teria percebido de outra forma.
Maravilha.
Mas o aprendizado é MEU. Tu não tem o direito de se meter nisso ô desgraça.
Não significa que a pessoa merece uma medalha por ter criado a situação.
Se alguém joga você num buraco e você aprende a escalar para sair de lá, parabéns pela tua escalada e não pra quem te empurrou, não concorda?
Essa mania de transformar todo sofrimento em presente às vezes cria umas distorções estranhas. Parece que, se crescemos depois de uma experiência ruim, então aquela experiência precisava acontecer.
Não necessariamente.
Eu preferia ter aprendido algumas coisas de uma maneira muito menos filha da puta.
Teria sido ótimo.
Eu gosto de me olhar de frente
Talvez justamente porque gosto de desenvolvimento pessoal eu tenha pouca paciência para essa conversa de que reconhecer a responsabilidade do outro significa fugir da minha.
Eu consigo olhar para o que é meu.
Já tomei decisões ruins. Já insisti quando deveria ter ido embora. Já ignorei coisas que hoje me parecem óbvias. Já falei o que não deveria, reagi mal, voltei atrás, confiei demais, desconfiei de menos e certamente ainda vou fazer muita besteira antes de morrer.
Não tenho problema em reconhecer isso.
Na verdade, existe alguma coisa muito boa em poder dizer: “Aqui eu errei.”
Porque, quando o erro é meu, eu posso fazer diferente.
Mas maturidade não é assumir a culpa por tudo. E autoconhecimento não deveria virar uma espécie de autoflagelação sofisticada em que, diante de qualquer coisa que alguém faça conosco, a primeira pergunta precisa ser: “O que há em mim que permitiu isso?”
Às vezes há algo para olhar.
E às vezes há apenas alguém se comportando mal.
Eu posso investigar meus padrões sem absolver os seus.
Posso reconhecer onde permaneci sem fingir que isso torna aceitável o que você fez enquanto eu permanecia.
Posso aprender sobre mim sem carregar nas costas a responsabilidade pelas escolhas de outra pessoa.
Uma coisa não apaga a outra.
O aprendizado continua sendo meu
Hoje eu quero continuar crescendo. Quero chegar aos cinquenta, sessenta, setenta, oitenta anos ainda descobrindo coisas, mudando de ideia, percebendo onde posso ser melhor e me surpreendendo comigo mesma.
Espero nunca chegar naquele lugar insuportável em que a pessoa acha que já entendeu tudo.
Mas também quero escolher de quem aceito conselho, o que faço com as minhas experiências e quais conclusões tiro daquilo que vivi.
Porque minha vida não é uma sala de aula aberta para qualquer um assumir o quadro.
Tem gente cuja opinião sobre mim me interessa profundamente. Tem gente que pode me chamar num canto e dizer: “Ju, acho que você está errada”, e eu vou escutar.
E tem gente que pode escrever uma tese de quatrocentas páginas sobre como eu deveria viver e eu vou continuar tranquilamente fazendo meu café.
Isso também foi uma coisa que aprendi.
Talvez, no fim das contas, o título tenha uma pequena ironia: eu realmente consigo tirar aprendizado de muita coisa. Até das experiências que eu gostaria de nunca ter vivido.
Só não aceito mais que alguém use a palavra “aprendizado” para enfeitar desrespeito, nem “evolução” para me ensinar a tolerar aquilo que me faz mal.
Eu quero evoluir.
Quero aprender.
Quero me conhecer cada vez mais.
Mas quem decide o que a minha vida me ensinou sou eu.
E se você fez merda comigo, por favor, não venha depois com a lição de moral.
Eu já tenho o aprendizado.
Você pode ficar com a merda.
Comentários
Postar um comentário