O prazer de uma vida sem plateia

 


Outro dia pensei em quantas coisas fazemos imaginando, mesmo sem perceber, como aquilo seria visto por alguém.

A viagem precisa render foto.

A mesa bonita merece um story.

O treino precisa ser registrado.

O livro precisa aparecer.

O restaurante, a roupa, a conquista, a mudança de cabelo, o aniversário, o pôr do sol.

Até aquele café tranquilo de domingo às vezes precisa esperar alguns segundos porque primeiro precisamos encontrar um ângulo em que ele pareça... um café tranquilo de domingo.

É meio engraçado quando pensamos nisso.

Em algum momento, viver e mostrar que estamos vivendo começaram a se misturar.

Nem tudo que é bonito precisa virar conteúdo

Eu gosto de fotografia.

Gosto de guardar lembranças.

Mas não gosto de compartilhar isso nas redes sociais.

Não acho que exista nada errado nisso.

O problema talvez comece quando uma experiência parece um pouco menos real se ninguém souber que aconteceu.

Você faz uma viagem maravilhosa e pensa nas fotos.

Compra alguma coisa e imagina quem vai ver.

Conquista algo e uma parte da alegria já vem acompanhada da expectativa da reação dos outros.

Sem perceber, instalamos uma pequena plateia imaginária dentro da cabeça.

Ela opina sobre a roupa.

Sobre a casa.

Sobre o corpo.

Sobre o relacionamento.

Sobre as férias.

Sobre onde estamos na vida.

E, puta merda, essa plateia é exigente.

Existe um prazer muito particular em fazer alguma coisa que ninguém vai saber

Comprar flores e não fotografar.

Arrumar a mesa bonita numa terça-feira qualquer.

Usar aquela roupa de que você gosta mesmo sem sair.

Fazer uma viagem e voltar com fotografias que talvez nunca sejam publicadas.

Ter uma noite maravilhosa que ninguém te acompanhou.

Aprender alguma coisa sem anunciar um novo projeto.

Mudar alguma coisa na sua vida silenciosamente.

Existem alegrias que ficam diferentes quando pertencem apenas a nós.

Não melhores necessariamente.

Mais íntimas.

É como se a vida recuperasse um pequeno cômodo privado que estava sendo usado como vitrine.

E tem o fato de performar sem perceber

Existe a performance óbvia, aquela em que sabemos que estamos tentando impressionar.

Mas existe uma muito mais sutil.

A mulher que parece ter tudo sob controle.

O relacionamento feliz. A mãe paciente. A casa bonita. A carreira crescendo. A pessoa evoluída que já aprendeu todas as lições e agora reage a tudo com maturidade e respiração diafragmática.

Às vezes a gente sustenta uma imagem durante tanto tempo que começa a trabalhar para ela.

E aí acontece uma coisa perigosa:

a personagem passa a ter uma vida melhor do que a mulher que interpreta a personagem.

Por fora, tudo continua bonito.

Por dentro, você está cansada pra caralho.

Talvez por isso seja tão libertador ter espaços em que não precisamos parecer nada.

Nem fortes.

Nem interessantes.

Nem bonitas.

Nem produtivas.

Nem felizes.

Só presentes.

O que você faria se ninguém fosse saber?

Eu gosto dessa pergunta.

Não como uma grande investigação existencial.

Só como uma pequena provocação.

Se ninguém fosse ver, você ainda compraria isso?

Se ninguém fosse elogiar, ainda usaria?

Se não pudesse postar, ainda iria?

Se ninguém soubesse quanto custou, ainda escolheria?

Se ninguém pudesse admirar a sua decisão, ela continuaria fazendo sentido?

Às vezes a resposta vai ser sim.

Ótimo.

Talvez seja exatamente isso que você quer.

Mas algumas respostas podem surpreender.

Porque é muito fácil confundir desejo com aprovação quando passamos tempo demais olhando para nós mesmas pelos olhos dos outros.

Uma vida boa não precisa parecer uma vida boa

Talvez essa seja uma das ideias que eu mais gosto.

Uma vida pode ser maravilhosa e absolutamente desinteressante para quem olha de fora.

Pode ter café passado na hora.

Uma casa simples onde você respira aliviada.

Poucos amigos.

Um trabalho que paga as contas sem consumir sua alma.

Um relacionamento tranquilo que não renderia um único episódio de série.

Domingo de pijama. Comida repetida. Passeios conhecidos. Uma rotina que talvez ninguém invejasse.

E ainda assim você deitar à noite e pensar:

eu gosto da minha vida.

Isso vale muito.

Talvez mais do que construir uma existência que impressiona todo mundo, menos a pessoa que precisa vivê-la.

Não precisamos desaparecer das redes, jogar o celular no mar ou começar a viver numa cabana no meio do mato.

Podemos continuar compartilhando.

Só é bom preservar algumas coisas da plateia.

Alguns momentos.

Algumas alegrias.

Alguns planos.

Algumas versões nossas que não precisam ser explicadas, fotografadas ou aprovadas.

Porque existe uma liberdade enorme quando alguma coisa boa acontece e, antes de pensar em mostrar, você simplesmente pensa:

que bom que eu estou aqui.

E fica. Sem postar. Sem provar. Sem transformar em nada.

Só vivendo.

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