Tem dias em que você se arruma, olha no espelho e pensa:
"Caralho, hoje eu tô a própria Afrodite!"
O cabelo colaborou. A roupa caiu bem. A pele parece ter assinado um acordo temporário de paz.
E tem dias em que absolutamente nada aconteceu com o seu rosto, mas aparentemente durante a madrugada ele tomou decisões sem consultar você.
Normal.
Só que eu acho interessante pensar em uma coisa:
quando você se sente bonita, o que exatamente aconteceu?
Nem sempre é o espelho
Às vezes é uma roupa. Um cabelo recém feito. Uma maquiagem. Tudo bem.
Eu gosto de beleza, de cuidado, de vaidade. Não vamos fingir superioridade espiritual e dizer que aparência não importa.
Importa. Só não é a história inteira.
Porque existem dias em que você está impecável e não se sente bonita.
E outros em que está de cabelo preso, sem maquiagem, usando uma camiseta qualquer e alguma coisa em você parece... brilhar.
Talvez tenha dormido bem. Talvez esteja apaixonada. Talvez tenha acabado de fazer alguma coisa da qual se orgulha. Talvez esteja em paz. Talvez tenha rido muito.
É curioso como às vezes a beleza chega pelo lado de dentro e só depois aparece no espelho.
Também aprendemos a procurar defeito profissionalmente
Você olha uma fotografia bonita e imediatamente amplia.
Barriga, braço, queixo, pele, cabelo.
É quase uma auditoria. E a indústria é bastante prestativa nesse assunto.
Quando finalmente fazemos as pazes com uma coisa, aparece outra que aparentemente deveríamos corrigir.
Agora é o pescoço. A mão. A textura do colo. A sobrancelha. A papada. A pelanca do abano.
Daqui a pouco alguém inventa rejuvenescimento de cotovelo e pronto: mais uma preocupação que você não tinha na segunda-feira.
Talvez beleza também seja reconhecimento
Tem um tipo de beleza que aparece quando você começa a se parecer consigo.
Não com a mulher da tendência. Não com a versão mais jovem. Não com alguém que você segue.
Com você.
A roupa que combina com seu corpo e com sua personalidade. O cabelo que você realmente gosta. A maquiagem que dá prazer — inclusive nenhuma.
As marcas da idade que você escolhe tratar e aquelas com as quais decide fazer as pazes.
Isso não precisa ser uma guerra entre “natural” e “artificial”.
Pode fazer Botox, pintar o cabelo, colocar cílios. Pode não fazer porra nenhuma.
A pergunta talvez seja outra:
isso está me aproximando de mim ou tentando me consertar para caber em alguma coisa?
E tem a beleza que ninguém fotografa
A mulher concentrada fazendo algo que sabe fazer.
A que ri até perder a compostura.
A que fala sobre alguma coisa que ama e muda completamente o rosto.
A que está tranquila. A que voltou a confiar em si.
A que entrou num lugar sem se diminuir.
Essa beleza é difícil de comprar. Talvez porque não venha numa embalagem.
Então continue passando seu creme, escolhendo sua roupa, fazendo cabelo, unha, maquiagem ou o que fizer você se sentir gostosa.
Só não entregue para o espelho a responsabilidade inteira.
Às vezes a mulher que você está procurando ali aparece com muito mais nitidez quando você sai da frente dele.

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