Tem coisas que a gente carrega há tanto tempo que para de perceber o peso.
Responsabilidades. Culpa. Expectativas. Problemas que ninguém oficialmente entregou para você, mas que, de algum jeito, acabaram no seu colo.
E você foi levando.
Porque sempre levou.
Talvez você seja a pessoa que resolve as coisas na família. A que lembra dos aniversários, marca as consultas, organiza os encontros, percebe quando alguém não está bem, faz a ligação difícil, acalma a briga e sabe onde estão os documentos que ninguém mais sabe onde colocou.
Ninguém decidiu isso numa reunião.
Não houve votação.
Em algum momento, simplesmente ficou estabelecido:
“A Fulana resolve.”
Algumas funções chegam sem contrato e aparentemente são vitalícias
Tem a filha que cuida de todo mundo.
A irmã que mantém a família unida.
A amiga que sempre escuta.
A mãe que lembra de tudo.
A mulher que organiza a casa, mesmo quando outras pessoas perfeitamente alfabetizadas e dotadas de polegares opositores também moram nela.
E existe uma armadilha nisso: quando você faz alguma coisa por muito tempo, as pessoas começam a tratá-la como parte da sua personalidade.
Você não está fazendo aquilo. Você é aquela pessoa. A responsável. A forte. A organizada.
A que dá conta. Até você tentar parar.
Aí aparece o espanto:
“Mas você sempre fez isso.”
Sim.
E talvez esse seja justamente o problema.
“Sempre foi assim” não é uma boa razão
Existem tradições lindas.
E existem coisas que continuamos fazendo simplesmente porque ninguém teve a coragem de perguntar:
por quê?
Por que sou eu quem precisa lembrar? Por que sou eu quem precisa resolver?
Por que preciso evitar que fulano fique chateado? Por que sou eu quem liga?
Quem organiza? Quem cede? Quem segura?
Às vezes a resposta será legítima. Talvez aquilo realmente seja sua responsabilidade.
Mas algumas respostas vão ser apenas:
“Porque eu sempre fiz.”
E isso merece uma segunda pergunta:
“Mas eu ainda quero fazer?”
Não significa abandonar todo mundo, virar uma criatura egoísta e desaparecer numa cabana sem deixar endereço.
Significa revisar a distribuição de peso. Porque talvez você esteja carregando malas que nem são suas.
Também carregamos versões antigas de nós mesmas
Nem todo peso vem de outras pessoas. Tem coisa que nós mesmas criamos e continuamos carregando. Uma culpa antiga. Uma promessa feita quando a vida era outra.
Uma obrigação que já perdeu o sentido. A necessidade de provar alguma coisa.
A ideia de que precisamos ser fortes o tempo inteiro porque um dia ser forte foi a única opção.
Talvez tenha sido necessário. Talvez aquela mulher tenha feito exatamente o que precisava fazer.
Mas sobreviver de determinado jeito durante uma fase não significa que você precise continuar vivendo daquele jeito para sempre.
Algumas armaduras salvam. Depois pesam.
Soltar também dá culpa
Dá medo.
Essa é a parte inconveniente. A gente imagina que largar um peso vai trazer alívio imediato.
Às vezes traz culpa primeiro.
Porque quando você muda uma dinâmica antiga, alguém pode não gostar.
Especialmente se essa pessoa se beneficiava bastante da versão sua que fazia tudo.
Você pode ouvir que mudou.
Que está egoísta.
Que antes fazia.
Que não custa nada.
E talvez precise suportar por algum tempo o desconforto de não ocupar mais perfeitamente o papel que esperavam de você.
Isso não significa automaticamente que você esteja errada.
Às vezes significa apenas que o peso mudou de ombro e quem recebeu não gostou muito da novidade.
Talvez você não precise largar tudo
Pode começar pequeno.
Deixar alguém resolver o próprio problema. Não lembrar. Não antecipar. Não salvar.
Responder:
“Não sei.”
“Não consigo.”
“Dessa vez você vai precisar fazer.”
E resistir à vontade quase física de correr atrás cinco minutos depois e resolver mesmo assim. Porque algumas responsabilidades só deixam de ser nossas quando paramos efetivamente de executá-las.
Então talvez valha olhar para tudo o que você carrega e perguntar:
isso ainda é meu?
Algumas coisas serão.
Outras você escolherá continuar carregando por amor. Mas talvez encontre uma ou duas que estão aí apenas porque sempre estiveram.
E, se for esse o caso, você não precisa carregá-las até o fim da vida só para manter a tradição.
Pode colocar no chão. Esticar os ombros. E seguir um pouco mais leve.
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