Tem roupa que melhora o caráter



Eu sei que caráter não se compra. Sei também que uma calça bonita não transforma ninguém numa pessoa melhor e que provavelmente existem seres humanos horrorosos usando looks impecáveis neste exato momento.

Mas tem roupa que melhora o meu caráter.

Ou, pelo menos, melhora consideravelmente a minha disposição para lidar com a humanidade.

Tem dia em que eu visto qualquer coisa e sigo normalmente. E tem dia em que coloco uma roupa que cai exatamente como eu queria, olho no espelho e penso: agora sim podemos conversar.

Não aconteceu nenhuma transformação interior. Não resolvi meus traumas. Minha conta bancária continua a mesma e os problemas que estavam me esperando continuam lá. Só estou bonita.

E isso ajuda pra caralho.

Tem uma diferença entre estar vestida e estar vestida

Eu gosto de roupa.

Nem sempre gostei da mesma maneira, porque minha relação com meu corpo, meu estilo e até com a mulher que vejo no espelho mudou muito ao longo dos anos. Tem coisa que eu usaria tranquilamente em outra fase e hoje não me representa. Tem roupa que eu achava que nunca usaria e agora olho e penso: onde esteve durante toda a minha vida?

Acho gostoso perceber essas mudanças.

Só que existe uma roupa específica — e nem precisa ser cara — que parece encaixar não apenas no corpo, mas no humor.

Você coloca e ajeita menos.

Não fica puxando a blusa, escondendo a barriga, conferindo se marcou alguma coisa, tentando fazer o tecido obedecer a uma anatomia que claramente ele não foi preparado para conhecer.

A roupa simplesmente funciona.

E quando funciona, acontece uma pequena mágica: você esquece dela.

Sai de casa sem passar as próximas três horas pensando no próprio corpo.

Isso, para mim, é uma roupa boa.

Não necessariamente a que emagrece, alonga, afina, disfarça ou faz qualquer uma dessas coisas que passamos a vida ouvindo que roupa feminina deveria fazer.

Às vezes eu não quero disfarçar porra nenhuma.

Quero vestir.

Também existe aquela roupa que muda o jeito da gente andar

Essa eu adoro.

Pode ser um vestido, uma calça, uma jaqueta, um salto, uma bota, até um conjunto confortável que ficou tão bonito que você começa a andar pela casa como se tivesse compromissos muito mais importantes do que colocar roupa na máquina.

Você sabe que está igual.

Mas não está.

A postura muda um pouquinho. O cabelo parece colaborar. Você coloca um brinco porque agora a roupa pediu. Passa perfume. Talvez um batom. E, quando percebe, aquilo que começou com “vou só trocar de roupa” virou uma pequena produção.

Não porque alguém vai ver.

Às vezes você nem vai sair.

E eu gosto especialmente dessa parte.

Durante muito tempo, parece que nos ensinam que se arrumar precisa ter público. A roupa bonita é para sair, o perfume é para encontrar alguém, a lingerie bonita é para uma ocasião especial, o vestido melhor fica guardado esperando um evento à altura.

Eu já guardei coisa bonita demais esperando a vida acontecer.

Hoje acho meio desperdício.

Se eu quiser colocar uma roupa bonita para trabalhar em casa, vou colocar. Se quiser passar perfume para sentar no sofá, ninguém vai me prender. Se comprar uma camisola linda e dormir sozinha, a camisola cumpriu perfeitamente a função dela.

Eu estava lá.

Já havia alguém para aproveitar.

“Mas roupa é uma coisa superficial”

É.

E daí?

Essa é outra coisa para a qual minha paciência vem diminuindo.

Nem tudo de que gostamos precisa revelar a profundidade da nossa alma. Eu posso gostar de livros e de sapatos. Posso querer conversar sobre maternidade, dinheiro, relações, envelhecimento e também passar vinte minutos escolhendo entre duas bolsas praticamente iguais.

Uma coisa não cancela a outra.

Às vezes parece que a mulher precisa escolher entre ser inteligente e gostar de beleza, como se um batom ocupasse fisicamente o espaço cerebral onde poderia existir uma opinião importante.

Eu posso discutir a vida usando um vestido bonito.

Prometo que funciona.

Aliás, existe uma liberdade deliciosa em admitir que algumas coisas simplesmente nos dão prazer porque são bonitas. Uma estampa, um tecido, uma joia, uma bolsa, um sapato completamente desnecessário que faz seu coração dizer “meu Deus” antes que o cérebro consiga perguntar o preço.

Não precisamos transformar isso numa filosofia.

Gostei.

Quero.

Se couber no orçamento, talvez compre, a Shopee tá aí pra isso né gente?!.

Fim.

O problema é quando a roupa começa a mandar na gente

Agora, existe o outro lado dessa conversa.

Já tive roupa que praticamente exigia que meu corpo pedisse desculpas por existir.

Aquela calça que vai servir quando eu emagrecer. O vestido lindo que fica esperando uma versão futura de mim. A peça que entra, mas transforma respirar numa atividade opcional.

E por muito tempo isso pareceu normal.

A roupa não servia e a conclusão era imediatamente: meu corpo está errado.

Curioso como raramente olhávamos para a calça e pensávamos: “Que pena. Essa calça não foi competente o suficiente para me vestir.”

Talvez devêssemos ter feito isso mais vezes.

Hoje eu quero roupa que trabalhe para mim, e não o contrário. Quero conseguir sentar, comer, respirar, levantar os braços e viver sem passar o dia negociando com um botão.

Meu corpo já faz coisa demais por mim para ainda precisar prestar vestibular para entrar numa saia.

Se não serviu, próxima.

Isso parece pequeno, mas muda bastante a experiência de se vestir.

E tem dia em que eu preciso justamente dessa bobagem

Tem manhã em que estou cansada, sem muita vontade de nada, e colocar uma roupa de que gosto muda um pouco o clima.

Não cura o cansaço. Não resolve a vida. Não é uma experiência de transformação pessoal.

É só gostoso.

E eu estou cada vez mais interessada nas pequenas coisas que tornam um dia comum um pouco mais agradável sem precisar justificar a própria existência.

Uma xícara bonita.

Um cheiro bom na casa.

Lençol limpo.

Uma música que eu gosto.

E uma roupa que, quando eu visto, me faz olhar no espelho por meio segundo a mais.

Não porque finalmente pareço mais magra, mais jovem ou mais próxima de alguma mulher que vi na internet.

Porque pareço eu, só que numa versão particularmente bem vestida.

Tem dias em que isso basta.

E se eu estiver um pouco mais simpática, andar mais reta, responder mensagens com mais boa vontade e até tolerar melhor a humanidade depois de colocar aquele vestido...

bom.

Talvez caráter realmente não se compre.

Mas uma roupa boa dá uma bela ajuda.

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