Tem dias em que a gente se olha no espelho e pensa: ué, quando foi que isso apareceu aqui?
A calça resolveu negociar novos termos com a cintura. O rosto mudou. A pele ganhou manchas que ninguém encomendou. O cabelo começou a fazer o que bem entende. Apareceu uma dobra nova, uma cicatriz, uma estria, um fio branco absolutamente convencido de que tinha sido convidado.
E a nossa primeira reação é quase automática: eu preciso consertar isso.
"Meu Deus, preciso consertar isso!"
Porque aparentemente existe uma regra secreta segundo a qual o corpo feminino pode mudar até certa idade. Depois disso, qualquer alteração precisa ser imediatamente combatida com creme, dieta, academia, procedimento, suplemento, sérum, ácido, aparelho e, se bobear, intervenção divina.
Calma.
Talvez seu corpo não esteja dando errado.
Talvez ele esteja simplesmente... vivendo.
Em que momento escolheram a versão oficial do nosso corpo?
Essa eu queria saber.
Porque a gente fala muito sobre “voltar ao corpo que eu tinha”.
Voltar para onde?
Para os 20? Para antes dos filhos? Para antes daquele período difícil? Para quando você dormia oito horas e nem sabia o luxo que estava vivendo?
Seu corpo nunca ficou parado.
Ele mudou quando você deixou de ser criança, mudou na adolescência, mudou com hormônios, alimentação, trabalho, noites mal dormidas, exercício, estresse, felicidade, tristeza, medicamentos, gravidez, parto, amamentação, menopausa, doenças, recuperações e com uma coisinha bastante inconveniente chamada passagem do tempo.
E continuará mudando.
O estranho é que, em algum momento da vida adulta, parece que recebemos uma missão: escolher uma versão do nosso corpo e impedir que ela saia dali.
De preferência jovem, magra, firme, descansada, sem manchas, sem rugas, sem pêlos inconvenientes e com a bunda desafiando as leis da gravidade.
É um projeto modesto.
E você não precisa amar cada centímetro seu
Também precisamos conversar sobre isso.
Porque saímos do “odeie tudo e conserte imediatamente” para um “você precisa amar absolutamente cada pedacinho do seu corpo”.
Mulher, mais uma tarefa?
Não bastava trabalhar, pagar conta, beber água, fazer exercício, lembrar senha de aplicativo e descobrir o que vai ter para o jantar? Agora eu também tenho que acordar apaixonada pela minha barriga?
Ah, tenha dó!
Tem dia em que você vai se achar linda, sim, mas tem dia em que vai olhar no espelho e pensar: até que estamos bem, querida. E haverá o dia em que vai olhar e pensar: hoje não colaboramos.
Tudo bem.
Você não precisa achar tudo lindo para tratar seu corpo com respeito.
Pode não gostar da barriga naquele momento e ainda alimentá-la.
Pode se incomodar com o melasma e continuar aparecendo nas fotos.
Pode querer emagrecer sem passar o processo inteiro se odiando.
Pode pintar os cabelos brancos porque prefere assim. Pode deixá-los aparecer porque acha lindos. Pode usar maquiagem, fazer procedimentos, treinar, cuidar da pele, colocar cílios, tirar cílios, usar batom vermelho numa terça-feira às dez da manhã porque deu vontade.
A questão talvez seja outra:
estou fazendo isso porque gosto ou porque comecei a acreditar que, do jeito que estou, tem alguma coisa errada comigo?
Aí a conversa muda.
Convenhamos: o espelho está levando uma surra das redes sociais.
Você passa alguns minutos vendo mulheres fotografadas na melhor luz, no melhor ângulo, maquiadas, produzidas, posicionadas, filtradas, tratadas e escolhidas entre outras cinquenta fotos.
Aí vai ao banheiro.
Acende aquela lâmpada branca assassina em cima da cabeça às sete da manhã, com a cara inchada, aquela baba seca no canto da boca e pensa:
por que eu não estou daquele jeito?
Porque você está no banheiro às sete da manhã, criatura! Sem filtros! Real.
É uma competição completamente cruel.
Nos acostumamos tanto a ver pele sem poro, barriga sem dobra, rosto sem marca e corpo sem gravidade que começamos a estranhar características absolutamente normais de um ser humano.
Pele tem textura.
Barriga dobra quando a gente senta.
Rosto mexe quando a gente sorri.
Corpo tem pelo. Tem estria. Tem celulite. Tem cicatriz. Tem melasma. Tem coisa torta.
Tem pelanca sim senhora!
Tem um peito que talvez tenha decidido morar meio centímetro abaixo do irmão.
É um corpo, uai, não um projeto arquitetônico aprovado pela prefeitura.
E talvez a gente precise voltar a ver mais mulheres reais simplesmente para lembrar como mulheres reais se parecem.
Esse corpo que você critica estava ocupado vivendo
Às vezes olhamos para uma marca e enxergamos apenas aquilo que gostaríamos de apagar.
Mas o corpo que você tem hoje atravessou a sua vida com você.
Ele ficou acordado quando você precisou.
Aguentou períodos em que você estava no limite.
Pode ter gerado filhos, alimentado filhos, carregado criança no colo até o braço quase pedir demissão.
Trabalhou.
Dançou.
Transou.
Adoeceu.
Se recuperou.
Engordou.
Emagreceu.
Abraçou gente.
Chorou escondido no banheiro.
Riu até a barriga doer.
Sobreviveu a coisas que talvez ninguém olhando para você consiga imaginar.
E agora a gente vai olhar para ele e resumir tudo a uma dobrinha? (Ou duas, ou três, bem, você entendeu né?!)
É meio sacanagem.
Não significa que você precise agradecer solenemente às suas estrias todas as manhãs.
Mas talvez dê para diminuir um pouco a hostilidade.
Cuidar de você não é a mesma coisa que tentar se consertar.
Eu gosto de beleza.
Gosto de creme cheiroso, cabelo bonito, roupa que cai bem, unha feita quando dá vontade, maquiagem, perfume e daquela sensação deliciosa de passar pelo espelho e pensar: "Oi gostosa!."
Não acho que aceitar o próprio corpo signifique abandonar a vaidade.
Muito pelo contrário.
Existe uma vaidade que é uma delícia.
Você se arruma porque gosta.
Cuida da pele porque é gostoso.
Faz exercício porque se sente melhor.
Muda o cabelo porque enjoou.
Coloca uma roupa bonita simplesmente porque quer se sentir bonita.
E existe outra vaidade que é exaustiva.
Aquela em que você está sempre tentando finalmente ficar aceitável.
Perde três quilos e aparecem outros cinco.
Melhora a pele e agora o problema é o pescoço.
Cuida do cabelo e percebe a sobrancelha.
Resolve a sobrancelha e alguém na internet informa que aparentemente agora temos que nos preocupar com o envelhecimento das mãos.
Ah, pelo amor de Deus.
Essa lista nunca acaba porque existe uma indústria inteira muito contente em encontrar novos defeitos para vender novas soluções.
Você pode cuidar de tudo o que quiser.
Só não precisa passar a vida inteira em manutenção como se estivesse prestes a ser devolvida para a fábrica.
Talvez você esteja mais bonita do que consegue perceber agora
Tem uma crueldadezinha especialmente irritante nisso tudo.
Pegamos uma fotografia de dez anos atrás e pensamos:
Meu Deus, eu era linda.
Só que dez anos atrás provavelmente olhávamos aquela mesma barriga, aquele mesmo braço, aquele mesmo rosto e encontrávamos quinze problemas.
É quase cômico.
A mulher de hoje sente saudade do corpo que a mulher de ontem criticava.
Talvez seja interessante interromper esse ciclo antes de chegar outra década.
Seu corpo vai mudar.
Vai continuar mudando.
Você pode cuidar dele, mudar aquilo que quiser, estranhar algumas fases, amar outras e reclamar ocasionalmente — porque também somos humanas e ninguém precisa atingir iluminação espiritual diante do espelho do provador.
Mas talvez sua relação com ele possa ficar menos bélica.
Menos fiscal.
Menos “vamos encontrar o defeito do dia”.
E um pouco mais:
esse é meu corpo agora. O que podemos fazer de bom juntas?
Porque ele não ficou para trás.

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