Existe uma casa maravilhosa na internet.
Ela é clara. Organizada. Tem uma manta perfeitamente dobrada sobre o sofá.
Três livros estrategicamente posicionados sobre a mesa. Uma vela, um vaso.
Nenhum fio, nenhum carregador, nenhuma sacola, nenhuma correspondência esquecida.
E aparentemente ninguém mora naquela porra.
Porque uma casa onde pessoas vivem produz coisas.
Sapato. Copo. Toalha. Mochila. Brinquedo. Louça.
Um objeto misterioso que ninguém sabe de quem é, mas que permanece sobre a bancada durante onze dias.
A casa bonita da foto tem uma vantagem enorme
Ela está parada. A sua não. Na sua alguém toma banho, cozinha, dorme, chega cansado, procura roupa, faz uma tarefa, come no sofá, derruba coisa, recebe gente.
Vive.
Então talvez seja injusto comparar um cenário preparado durante duas horas para uma fotografia com a sua casa às 19h37 de uma quinta-feira.
A casa da internet está trabalhando como modelo. A sua está trabalhando como casa.
Bonito também precisa funcionar
Eu gosto de casa bonita. E muito.
Mas comecei a achar ainda mais bonita aquela que facilita a vida de quem mora nela.
O sofá em que dá vontade de sentar. A cozinha onde as coisas estão onde realmente são usadas, a mesa que pode receber uma panela quente, a cadeira confortável.
O armário que comporta as coisas que você tem.
A decoração que não exige que todo mundo ande pela sala como se estivesse visitando um museu.
Se alguma coisa é linda, mas torna sua rotina pior, talvez ela esteja trabalhando para a fotografia e não para você.
E sua casa pode combinar com a fase atual
Talvez hoje existam brinquedos.
Depois não existirão.
Talvez precise de uma mesa de trabalho no meio da sala.
Talvez a casa seja pequena.
Talvez esteja reformando.
Talvez ainda não tenha os móveis que gostaria.
Talvez esteja construindo aos poucos.
Casa não precisa estar “pronta” para ser lar.
Aliás, poucas ficam prontas.
A gente muda.
A vida muda.
As necessidades mudam.
E a casa vai junto.
Nem toda melhoria precisa ser comprada
Às vezes o que incomoda é excesso.
Um móvel no lugar errado.
Uma iluminação ruim.
Coisas acumuladas.
Um canto que nunca funciona.
Talvez tirar faça mais diferença do que acrescentar.
Mudar um móvel de lugar.
Abrir uma janela.
Consertar aquilo que irrita há seis meses.
Trazer uma planta.
Colocar perto de você alguma coisa que tenha história.
Sua casa não precisa convencer ninguém de que você tem bom gosto.
Precisa permitir que, quando você feche a porta depois de um dia difícil, alguma parte sua pense:
ainda bem que cheguei.
Isso vale mais do que qualquer fotografia bonita.

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