Existe uma categoria de problema feminino que talvez não precise de terapia, journaling, banho de ervas, alinhamento de chakras nem uma conversa profunda sobre o que estamos sentindo. Talvez precise de um lanche.
Eu sei. É uma afirmação perigosa numa internet em que absolutamente tudo parece esconder alguma coisa. Você está irritada? Pode ser uma ferida emocional. Está sem paciência? Talvez seus limites estejam sendo ultrapassados. Está desanimada? Quem sabe esteja desconectada do seu propósito.
Ou talvez sejam quatro e meia da tarde e você não coma porra nenhuma desde o almoço.
Também acontece.
Antes de analisar a vida, coma alguma coisa
Eu tenho uma teoria pouco científica e bastante baseada na experiência: algumas crises existenciais deveriam vir acompanhadas de uma pergunta muito simples — você já comeu?
Porque existe uma versão minha que acha que a vida perdeu o sentido, que ninguém me entende, que tudo está difícil demais e que talvez eu precise tomar decisões drásticas. Aí essa mulher come. Quinze minutos depois, aparentemente, a vida continua administrável. Não maravilhosa. Administrável. E às vezes é tudo de que precisamos.
Claro que comida não resolve boleto, relacionamento ruim, chefe insuportável nem crise de identidade. Infelizmente ainda não desenvolveram um pão de queijo com capacidade de quitar cartão de crédito. Eu compraria.
Mas existe uma diferença enorme entre resolver um problema e nos devolver condições mínimas para lidar com ele. E nisso um lanche pode ser surpreendentemente competente.
A gente transformou a comida numa coisa estranhamente moral. Tem comida boa, comida ruim, dia do lixo, exagero, culpa, compensação, merecimento. Às vezes parece que uma mulher não pode simplesmente comer uma coisa gostosa sem abrir uma comissão de inquérito depois.
Comeu porque estava triste? É emocional. Comeu porque estava feliz? É recompensa. Comeu sem fome? Descontrole. Comeu porque estava com vontade? Bom, talvez seja melhor investigar essa vontade.
Meu Deus.
Às vezes eu quero um pastel.
Não existe trauma infantil escondido dentro dele. É só um pastel.
Comer também é uma das coisas gostosas da vida
Talvez a gente tenha complicado demais uma das experiências mais antigas e simples do mundo: comer também é prazer.
Comida não é apenas combustível, proteína, fibra, carboidrato, calorias e macronutrientes. Existe afeto nela. Existe memória. Existe encontro. Existe cheiro de casa, aquela receita específica que alguém fazia, pizza numa sexta-feira, café passado na hora, pipoca no sofá e o maravilhoso momento em que alguma coisa gostosa chega e você pensa: “Era exatamente isso que eu queria.”
Isso também é viver.
Há dias em que eu quero comida bonita. Fruta cortada, café numa xícara bonita, alguma coisa arrumadinha num prato como se eu tivesse minha vida sob controle. Há outros em que meu padrão gastronômico é: tem queijo? Serve.
E existem aqueles dias em que eu quero uma coisa específica. Um hambúrguer, um salgado, batata frita, chocolate, um pedaço de bolo, alguma coisa crocante que faça crec e interrompa meus pensamentos por alguns segundos.
Talvez não seja a refeição nutricionalmente mais impecável da história da humanidade. Tudo bem. Uma refeição não precisa carregar nas costas a responsabilidade por toda a nossa saúde. Da mesma maneira que uma salada não transforma automaticamente ninguém em saudável, uma coxinha não destrói uma existência inteira. A vida acontece no conjunto.
Às vezes o lanche nem é sobre comida
Às vezes é sobre interromper o dia. Sentar um pouco, largar o computador, parar de responder, fazer alguma coisa só porque você está com vontade.
Mesmo que seja abrir um pacote de biscoito escondida das crianças porque, misteriosamente, mãe nunca possui comida própria. Ela apenas administra um patrimônio alimentício coletivo.
Você abre o pacote e uma criança aparece.
— O que você está comendo?
De onde ela veio? Ninguém sabe. Você estava sozinha havia três minutos, mas ela ouviu o plástico. Criança escuta embalagem de comida numa frequência que aparentemente adultos perderam durante a evolução.
E pronto. Metade do seu lanche já pertence à comunidade.
Ainda assim, aquele pequeno intervalo pode ser delicioso. Porque talvez o que você estivesse precisando não fosse exatamente da comida, mas de alguns minutos em que ninguém estivesse pedindo nada, em que você pudesse sentar e simplesmente desfrutar de alguma coisa.
Sem transformar aquilo em autocuidado consciente. Sem precisar acender vela. Sem criar um ritual. Sem postar. Sem aprender nada sobre si mesma.
Só comer seu negócio em paz.
Primeiro o sanduíche. Depois decidimos o futuro.
Eu gosto da ideia de que algumas coisas podem esperar até depois do café. A mensagem pode esperar. A decisão pode esperar. A discussão talvez possa esperar. E a conclusão de que sua vida inteira está dando errado definitivamente pode esperar.
Coma alguma coisa. Sente um pouco. Tome água também, porque aparentemente agora sou sua mãe.
Depois você volta ao problema.
Se ele continuar uma merda, tudo bem. Pelo menos agora você vai enfrentá-lo alimentada. E se depois do lanche ele parecer uns 37% menos dramático, melhor ainda.
Nem todo desconforto esconde uma grande questão. Nem toda vontade precisa ser investigada. Nem todo prazer precisa ser conquistado, compensado ou justificado.
Às vezes você está cansada.
Às vezes está com fome.
Às vezes quer batata frita.
Tem dia que um lanche resolve.
E tem dia que não resolve porra nenhuma.
Mas ajuda.
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