Vamos falar de tesão?
Vamos.
Eu adoro como nós, mulheres adultas, conseguimos conversar com uma naturalidade impressionante sobre menstruação, parto, dinheiro, ex, intestino, sogra, boleto, cabelo caindo, menopausa e até sobre aquela coisa estranha que apareceu numa parte do corpo e que provavelmente deveria ser mostrada a um dermatologista.
Mas fala “tesão” numa roda e sempre acontece alguma coisa.
Uma ri.
Outra olha para os lados.
Uma terceira solta um “menina!” como se alguém tivesse acabado de tirar a roupa em cima da mesa.
E eu fico pensando: gente, nós somos adultas. Podemos falar de tesão.
Aliás, deveríamos falar mais. Né?!
Pode pedir outra rodada porque ninguém vai embora tão cedo.
Eu, particularmente, gosto do assunto. E já que a proposta deste lugar é conversar sobre a mulher por inteiro, acho justo colocar uma informação importante na mesa: eu gosto de sexo. E muito.
Tenho cinco filhos.
Façam com essa informação o que quiserem.
E antes que alguém venha estragar uma excelente piada com explicações sobre métodos contraceptivos, planejamento familiar, julgamentos e o fato de que quantidade de filhos obviamente não comprova frequência nem entusiasmo sexual: eu sei.
Deixa eu trabalhar com as evidências circunstanciais que a vida me deu, porra.
A questão é que eu realmente gosto. Gosto de desejo, de atração, daquela eletricidade deliciosa que existe quando duas pessoas se querem. Gosto da intimidade, da brincadeira, da antecipação, da proximidade e dessa parte da vida que faz a gente lembrar que, além de pagar conta, trabalhar, criar filho e decidir pela décima vez o que vai ter para o jantar, a gente também tem corpo.
E talvez justamente por gostar tanto eu tenha algumas observações a fazer.
Tenho, inclusive, uma reclamação formal em nome das mulheres.
Antes de tudo: ser bi tornou a minha pesquisa de campo mais interessante
Ser bissexual me deu uma perspectiva que eu acho particularmente divertida sobre atração porque meu cérebro não recebeu instruções para restringir o departamento a um único gênero.
Homens podem me atrair.
Mulheres podem me atrair.
E isso só tornou ainda mais evidente para mim que beleza e tesão são duas coisas completamente diferentes.
Existe gente belíssima que eu olho e penso: realmente, um trabalho primoroso da natureza.
Parabéns aos envolvidos.
E continuo comendo minha batata.
Aí aparece alguém que nem corresponde perfeitamente ao que eu diria ser “meu tipo” e acontece alguma coisa. O corpo faz uma reunião extraordinária sem consultar a diretoria.
No meu caso, existem três coisas particularmente perigosas: inteligência, voz e mãos bonitas.
Inteligência talvez seja a pior porque vai acontecendo aos poucos. A pessoa começa a falar e você percebe que ela pensa. Depois percebe como ela pensa. A conversa vai ficando interessante, ela faz uma associação inesperada, entende uma coisa que quase ninguém percebe...
E pronto.
Complicou.
Porque tem gente que vai ficando mais bonita — e mais gostosa — enquanto fala.
Também existe o fenômeno inverso, naturalmente. A pessoa pode ser espetacularmente bonita e, depois de quinze minutos de conversa, você começa a olhar de novo e pensar:
“Curioso. Tenho quase certeza de que era mais bonita quando chegou.”
A inteligência faz milagres.
A falta dela também.
Agora, a voz...
Tem voz que deveria vir com advertência na embalagem.
Eu não sei explicar direito e talvez nem queira. Tem determinadas vozes que entram pelo ouvido e aparentemente pegam um caminho alternativo dentro do organismo. Não precisam nem estar falando alguma coisa particularmente interessante. Às vezes a criatura poderia estar lendo os termos de uso de um aplicativo e eu estaria pensando:
“Não para.”
E chegamos às mãos.
Eu tenho uma coisa com mãos bonitas.
Não sei quem é o pesquisador responsável por essa área da sexualidade humana, mas ele está claramente atrasado no trabalho porque precisamos de respostas.
Mãos bonitas me atraem muito. O formato, os dedos, o jeito de movimentar, a maneira de segurar alguma coisa... Não precisa fazer absolutamente nada. Aliás, talvez seja justamente aí que mora o problema: minha imaginação já tem autonomia administrativa suficiente.
Portanto, se alguém reunir inteligência, voz bonita e mãos bonitas na mesma pessoa, eu gostaria apenas de dizer que considero isso concorrência desleal.
E eu acho que às vezes as mulheres levam a culpa injustamente
Agora vamos entrar numa fofoca que pode provocar discussões.
Quantas vezes a gente já ouviu que mulher “não gosta tanto de sexo”?
Ou que mulher perde o interesse.
Que mulher tem pouca libido.
Que mulher é complicada.
Que precisa de clima, romance, conexão, lua cheia, temperatura de 23 graus, que Mercúrio não pode estar retrógrado e três velas aromáticas acesas na direção norte.
Amiga...
Às vezes talvez ela realmente esteja cansada, atravessando uma fase diferente, lidando com hormônios, medicamentos, insegurança, estresse, maternidade, sobrecarga ou simplesmente com uma libido mais baixa. Tudo isso existe.
Mas às vezes o sexo é que é ruim!
Pronto, falei.
E eu acho meio injusto colocar automaticamente na mulher o diagnóstico de “ela não gosta de sexo” sem ninguém investigar a qualidade do serviço que está sendo oferecido.
Porque também convenhamos: às vezes a outra criatura recebeu de fábrica mãos, boca, imaginação, capacidade de ouvir instruções, possibilidade de aprender e um universo inteiro de recursos disponíveis... e decide trabalhar com aproximadamente 4% do equipamento, dá três “oi”, encerra o expediente, se larga na cama e respira exausto como se tivesse acabado de atravessar o Saara carregando um piano.
PELAMORDIDEUS!
Aí fica difícil responsabilizar exclusivamente o público pela baixa avaliação do estabelecimento, né?
Não é que toda relação sexual precise ser uma apresentação do Cirque du Soleil. Não é pra tanto. Ninguém quer sair com uma distensão muscular e um pedido de fisioterapia.
Mas interesse ajuda.
Curiosidade ajuda.
Prestar atenção ajuda pra caralho.
Porque existe uma diferença gigantesca entre alguém que está apenas fazendo sexo e alguém que está realmente interessado em descobrir o que dá prazer à pessoa que está ali.
E talvez uma das coisas mais sensuais que existam seja justamente essa atenção.
A pessoa percebe.
Escuta.
Pergunta.
Aprende.
Não entra na situação com um manual imaginário escrito a partir do que funcionou com outra pessoa em 2017 e conclui que agora possui certificação internacional.
Corpos não vêm com configuração universal.
Ainda bem.
E já que estamos falando de ferramentas... precisamos falar do vibrador
Aqui entra uma história que eu adoraria poder apresentar como prova histórica de tudo o que acabei de dizer.
Durante muito tempo circulou — e ainda circula — uma história maravilhosa de que mulheres começaram a procurar médicos com uma série de sintomas e eram diagnosticadas com a famosa “histeria feminina”. O médico então teria descoberto que uma bela estimulação genital levava ao tal “paroxismo” — porque aparentemente chamar de orgasmo seria simples demais — e a paciente saía de lá muito melhor.
Até aí eu já estaria interessadíssima no prontuário.
A história continua dizendo que o tratamento fez tanto sucesso que os médicos começaram a ficar sobrecarregados. Afinal, haja mão.
E então, diante daquela demanda aparentemente inesgotável de mulheres precisando ser “curadas”, alguém teria pensado:
“Precisamos de uma máquina para essa porra, ou pra esse bando de ppk."
E assim teria surgido o vibrador.
Convenhamos.
É uma história boa pra caralho.
A mulher passa a vida ouvindo que é nervosa, histérica, complicada, frígida, insatisfeita, difícil de entender. Vai ao médico. O homem descobre o botão certo. Ela melhora. Aparecem mais mulheres. O médico já não dá conta do expediente e a Revolução Industrial precisa ser convocada para ajudar.
Eu estava prontíssima para usar isso como evidência histórica de que talvez o problema nunca tenha sido mulher não gostar de sexo.
Talvez estivesse faltando investimento em infraestrutura.
Só tem um pequeno detalhe inconveniente: a história provavelmente não aconteceu desse jeito.
Embora eu tenha minhas teorias de que foi um homem que desmentiu essa história só para não deixar registrado para a posteridade que precisaram inventar uma máquina porque os homens não estavam dando conta do serviço. A reputação masculina agradece. Mas enfim... é só uma teoria minha.
Fui conferir.
Que ódio quando os fatos estragam uma piada com tanto potencial.
A história ficou famosíssima, foi repetida durante anos em livros, reportagens, filmes e conversas, mas pesquisadores que voltaram às fontes históricas contestaram justamente essa versão de que médicos masturbavam rotineiramente pacientes diagnosticadas com histeria e que o vibrador teria sido inventado para poupar as pobres mãos cansadas dos doutores.
Ou seja:
perdi meu argumento histórico.
Ou quase.
Porque, verdadeira ou não, convenhamos...
Uma história dessas também não circula durante tanto tempo e encontra tanta mulher dizendo “EU SABIA!” por puro acaso.
Talvez ela tenha sobrevivido justamente porque encosta numa coisa que mulheres reconhecem rápido demais.
Durante séculos se falou da frigidez feminina, da histeria feminina, da falta de desejo feminina, da dificuldade feminina, da complicação feminina.
E talvez tenha faltado fazer uma perguntinha bem básica:
o sexo que essas mulheres estavam fazendo era bom para elas?
Então não, eu não vou dizer que o vibrador foi inventado porque um médico estava com câimbra de tanto dar orgasmo em paciente.
Mas também não vou fingir que não entendo perfeitamente por que essa história pegou.
Boas entendedoras entenderão.
E, de qualquer maneira, chegamos ao século XXI e o vibrador existe.
Mãos continuam existindo.
Bocas continuam existindo.
Dedos continuam existindo.
Imaginação continua disponível gratuitamente.
Comunicação também.
E curiosidade, até onde eu sei, ainda não exige assinatura premium.
Então talvez a questão continue sendo menos “mulher não gosta de sexo” e um pouquinho mais:
alguém se interessou em descobrir do que ela gosta?
Porque é muito fácil declarar que o público não gostou do espetáculo quando o artista subiu no palco, apresentou três minutos de repertório, agradeceu a presença, virou para o lado e foi dormir.
E, sinceramente, se algum dia aparecer uma prova definitiva de que o vibrador realmente foi inventado porque um homem cansou de usar a mão para dar prazer às mulheres, eu volto aqui e atualizo este artigo pessoalmente.
Até lá:
as mãos continuam convocadas para o serviço.
Especialmente as bonitas.
“Ela não gosta de sexo” — será?
Essa frase me diverte porque às vezes eu gostaria de ouvir a versão completa do camarada.
“Ela não gosta de sexo, tá sempre com 'dor de cabeça.'”
Qual sexo?
Com quem?
Como?
Em que contexto?
Eu adoraria pedir "pruns" Jurandir aí: Ela não gosta de sexo ou não gosta de sexo com você, chuchuzinho?
Porque talvez a mulher passe anos acreditando que sexo simplesmente não é uma coisa tão importante para ela e, em outro momento da vida, descubra:
Ah.
Então era isso.
E isso não significa que toda falta de desejo seja culpa do parceiro ou parceira. Claro que não. Desejo é muito mais complexo do que isso. Tem corpo, cabeça, hormônios, história, segurança, cansaço, relação, fase da vida e mais umas quarenta coisas misturadas.
Mas acho muito conveniente uma cultura inteira passar séculos dizendo que mulheres são sexualmente frias sem fazer uma pergunta bastante elementar:
Elas estão gostando do sexo que estão fazendo?
Porque eu gosto de sexo.
Muito.
E mesmo assim existe uma distância enorme entre “gostar de sexo” e “gostar de qualquer sexo disponível”.
Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra.
Eu gosto de comida também. Isso não significa que vou ficar emocionada se alguém colocar na minha frente um macarrão grudado, sem molho, sem tempero, triste pra caralho, e disser:
“Ué, mas você não gosta de comer?”
Gosto.
Disso aí é que eu não gostei.
E gostar muito também não significa querer o tempo inteiro
Aqui entram novamente os cinco filhos, porque eles servem para praticamente qualquer argumento deste texto.
Uma coisa é gostar de sexo. Outra é estar disponível mentalmente para sexo numa terça-feira à noite depois de trabalhar, resolver problemas, pensar em contas, administrar uma casa e ouvir “MÃÃÃE” tantas vezes que a palavra perdeu o significado semântico e virou apenas um som ambiente.
Eu posso gostar muito de sexo e, em determinado momento, considerar oito horas de sono ininterruptas uma proposta tão indecente que chega a me dar arrepios.
Isso não é contradição.
É cansaço.
Aliás, mãe desenvolve uma relação muito particular com o silêncio, a porta fechada e ninguém precisando dela. Dependendo da semana, isso já é praticamente preliminar.
E aí entra uma coisa que eu acho essencial: a cabeça participa do sexo.
Muito.
Desejo conversa com o corpo, mas também conversa com admiração, intimidade, segurança, liberdade, curiosidade e com a maneira como somos tratadas. É difícil sentir uma vontade avassaladora de alguém por quem você está acumulando ressentimento enquanto recolhe pela milésima vez a toalha molhada que a criatura deixou em cima da cama.
Talvez a lingerie não seja o problema.
Talvez seja a porra da toalha.
E talvez antes de comprar óleo de massagem, vela aromática e alguma peça de renda que exige um diploma de engenharia para descobrir onde entra a perna, seja interessante resolver por que você está querendo esganar a pessoa desde terça-feira.
Ressentimento ocupa um espaço danado na cama.
Tem também aquele tesão que não precisa virar nada
Essa é uma das coisas que eu mais gosto na vida adulta: perceber atração não cria obrigação nenhuma.
Você pode achar alguém absurdamente interessante e simplesmente...
achar.
Pode olhar.
Pode apreciar.
Pode pensar um silencioso:
“Meu Deus do céu.”
E continuar andando.
Nem todo tesão precisa virar história, encontro, mensagem, relacionamento ou uma decisão extremamente questionável tomada às duas e vinte e três da manhã.
Às vezes ele chega, acena e vai embora.
Obrigada pela visita.
E eu gosto disso porque me lembra que desejo também é uma experiência minha. Não existe apenas em função do que vou fazer com outra pessoa.
Talvez por ser bi isso tenha ficado ainda mais claro para mim. Posso perceber beleza, sensualidade e atração em homens e mulheres sem precisar transformar cada atração numa possibilidade concreta.
Às vezes é só aquela mulher maravilhosa que passou.
Às vezes é aquele homem com aquela voz.
Às vezes são aquelas mãos.
As benditas mãos de novo.
E podemos deixar uma mulher gostar de sexo sem transformar isso em manifesto?
Outra coisa que me incomoda é a necessidade de colocar a sexualidade feminina sempre em um dos extremos.
Ou a mulher precisa ser recatada para ser respeitada, ou precisa performar uma sexualidade escancarada para provar que é livre.
Eu não quero nenhuma das duas obrigações.
Eu simplesmente gosto de sexo.
Isso não é toda a minha personalidade. Também gosto de escrever, conversar, aprender, ganhar dinheiro, ficar bonita, comer alguma coisa gostosa, cuidar da minha casa, ficar sozinha, estar com quem amo e passar tempo demais pensando em detalhes absolutamente desnecessários.
E tenho cinco filhos.
Já mencionei?
A sexualidade é só mais uma parte de mim.
Uma parte importante, divertida, quente, curiosa e que eu não vejo motivo para esconder como se fosse incompatível com ser mãe, mulher adulta ou qualquer outra coisa que eu seja.
Aliás, talvez uma das coisas que eu ache mais sexy numa mulher seja justamente ela conhecer o próprio desejo sem precisar pedir desculpas por ele.
Eu quero.
Eu não quero.
Isso me atrai.
Isso não.
Hoje sim.
Hoje, se encostar em mim, talvez eu morda — e não do jeito divertido.
Aquela pessoa me dá tesão.
Aquela outra poderia aparecer coberta de chocolate belga, carregando uma bandeja de brigadeiro e a escritura de uma casa quitada que eu ainda diria:
“Obrigada. A escritura pode deixar.”
No fim, talvez seja disso que eu queira falar
Quero falar sobre sexo como uma parte normal da vida feminina.
Sem transformar tudo em palestra.
Sem cochichar.
Sem a obrigação de parecer comportada.
E sem transformar a conversa numa competição para descobrir quem transa mais, quem é mais livre, quem tem mais libido ou quem sabe mais.
Quero aquela conversa que acontece quando as mulheres percebem que podem falar de verdade.
Sobre tesão. Sobre falta de tesão. Sobre o que atrai. Sobre o que desliga completamente. Sobre as coisas que ninguém ensinou. Sobre descobrir o próprio corpo. Sobre sexo bom. Sobre sexo ruim. Sobre fases. Sobre rir no meio. Sobre querer muito. Sobre não querer nada.
E, sim, eventualmente sobre aquela criatura que tinha uma voz maravilhosa, uma inteligência perigosíssima e mãos que claramente deveriam exigir autorização da Anvisa.
Porque, sinceramente?
Se o Ella é sobre mulheres por inteiro, essa parte também entra.
E se alguém questionar minhas qualificações para inaugurar a editoria Sexo, eu apresento meu currículo:
bissexual, gosta muito de sexo e mãe de cinco filhos.
A banca que lute.
O restante a gente fofoca depois.

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