Tem uma fase da vida adulta em que a gente percebe que virou funcionária da própria vida.
Você acorda e já tem coisa te esperando.
Tem café para fazer, cama para arrumar — ou ignorar com convicção —, criança para acordar, cachorro para alimentar, roupa para lavar, mensagem para responder, trabalho, boleto, mercado, consulta para marcar, alguma coisa acabando na geladeira e um compromisso que você jurava que era só na semana que vem.
Quando percebe, são dez da noite.
Você fez um monte de coisas.
Resolveu um monte de coisas.
Cuidou de um monte de gente.
E aí vem uma pergunta meio besta, mas que às vezes bate forte:
em que momento do dia eu estive na minha própria vida?
Não cumprindo uma função.
Não sendo mãe, filha, esposa, namorada, profissional, cuidadora, motorista, cozinheira, administradora oficial do papel higiênico.
Eu.
Onde foi que eu apareci hoje?
Tem dias em que você só vai apagando incêndio
E o pior é que nem precisa estar acontecendo uma grande tragédia.
Às vezes é justamente o contrário.
É uma quarta-feira absolutamente normal.
Só que a vida vem em pequenas prestações.
“Precisa comprar detergente.”
“Não esquece de responder fulana.”
“Tem reunião às duas.”
“Acabou a ração.”
“Marca o dentista.”
“Mãe, preciso levar um negócio amanhã.”
Amanhã?
Que horas você descobriu isso, criatura?
“Semana passada, mas esqueci de te contar.”
Claro.
Aí aparece uma cobrança no cartão que você não reconhece, alguém precisa de um favor, tem roupa há dois dias dentro da máquina — e nesse ponto talvez seja mais honesto admitir que ela já mora lá —, você lembra que precisava ter descongelado alguma coisa para o jantar e, no meio disso tudo, tenta descobrir por que está tão irritada.
Talvez porque você esteja administrando 74 abas mentais abertas e em alguma delas tem uma música tocando, mas você não consegue descobrir qual.
E você vai ficando para depois
É muito fácil fazer isso sem perceber.
Primeiro você resolve o urgente.
Depois o importante.
Depois o que alguém pediu.
Depois aquilo que, se você não fizer, simplesmente não acontece.
E você?
Depois.
Quando tiver tempo.
Quando as coisas acalmarem.
Quando terminar esse mês.
Quando as crianças dormirem, ou irem pra faculdade.
Quando organizar a casa.
Quando estiver com mais dinheiro.
Quando passar essa fase.
Só que existe um pequeno problema nessa estratégia:
sempre tem alguma coisa.
A vida não costuma mandar um e-mail dizendo:
Prezada senhora, informamos que todas as pendências foram concluídas. A partir desta segunda-feira, sua existência estará oficialmente tranquila. Favor aproveitar.
Eu também gostaria.
Mas não vem.
E nem sempre “tempo para você” precisa ser aquela coisa bonita do Instagram
Quando falamos em se priorizar, parece que imediatamente aparece uma mulher de roupão branco tomando chá numa banheira cercada de velas.
Amiga, às vezes eu só quero ninguém falando comigo por vinte minutos.
Isso conta.
Tempo para você pode ser tomar café sentada enquanto ainda está quente.
Entrar no carro e ficar cinco minutos ali antes de subir.
Tomar banho sem alguém gritando do outro lado da porta.
Assistir a uma porcaria na televisão.
Comer alguma coisa gostosa.
Ouvir música.
Dar uma volta.
Passar um creme porque você gosta do cheiro.
Ficar no sofá jogando no celular sem transformar aquilo em “tempo improdutivo que poderia estar sendo melhor aproveitado”.
Às vezes pode ser simplesmente não fazer porra nenhuma.
E veja que interessante: você não precisa transformar esse momento em desenvolvimento pessoal.
Não precisa aproveitar para ouvir um podcast.
Não precisa fazer uma meditação guiada.
Não precisa ler dez páginas.
Não precisa aprender inglês enquanto lava a louça.
Você pode lavar a louça ouvindo música ruim dos anos 2000 e pronto.
Inclusive recomendo respeitar a dignidade da música ruim.
Tem uma diferença entre ter uma vida cheia e desaparecer dentro dela
Uma vida cheia pode ser maravilhosa.
Pode ter filhos, trabalho, projetos, gente entrando e saindo, planos, compromissos, bagunça, sonhos.
O problema não é necessariamente ter muita coisa.
O problema é quando tudo tem um lugar na sua rotina, menos você.
A conta vence dia 10.
A reunião está marcada para quinta.
A consulta está na agenda.
O aniversário está no calendário.
A atividade da escola tem lembrete.
O cachorro tem horário para o remédio.
E aquilo que faz bem para você fica naquele espaço imaginário chamado:
“quando der”.
Quando der é um lugar perigosíssimo.
Quase nada acontece lá.
“Mas eu realmente não tenho tempo”
Eu sei.
E muitas vezes é verdade.
Existem fases em que a vida fica apertada de verdade. Não é falta de organização, mentalidade, disciplina ou “saber priorizar”.
Às vezes tem criança pequena, às vezes um cara que tu não sabe se é teu marido ou mais um filho que tu tem que criar.
Tem trabalho demais.
Tem dinheiro de menos.
Tem alguém precisando de cuidado.
Tem uma casa inteira dependendo de você.
Tem problemas reais que não desaparecem porque alguém escreveu “coloque-se em primeiro lugar” numa caneca.
Aliás, essa frase às vezes me irrita.
Porque parece simples colocar-se em primeiro lugar quando existem cinco pessoas perguntando onde estão as meias.
Talvez você nem consiga se colocar em primeiro.
Mas precisa mesmo estar sempre em último?
Acho que essa é uma pergunta mais honesta.
Talvez você não precise de mais uma rotina
Porque aí vem a solução moderna para qualquer problema:
crie uma rotina.
Rotina matinal.
Rotina noturna.
Rotina de autocuidado.
Rotina de exercícios.
Rotina de organização.
Rotina para administrar as outras rotinas.
Daqui a pouco precisamos contratar uma secretária para cuidar da agenda de autocuidado.
Talvez o que esteja faltando não seja colocar mais uma coisa no seu dia.
Talvez seja tirar alguma coisa.
Uma obrigação que ninguém mandou você assumir.
Um padrão impossível para a casa.
Uma resposta que pode esperar.
Um compromisso aceito por educação.
Uma tarefa que outra pessoa perfeitamente capaz pode fazer.
Alguma coisa feita “porque sempre fui eu que fiz”.
E aqui mora uma pergunta perigosa:
precisa mesmo ser você?
Porque às vezes a gente está exausta fazendo coisas que poderiam perfeitamente continuar existindo sem a nossa supervisão.
Talvez não do nosso jeito.
Esse é outro problema.
Mas sobreviveriam.
Você também mora aí
Na sua casa. Na sua agenda. Na sua família. Na sua rotina. Na sua vida.
Parece óbvio, mas às vezes a gente vive como se fosse a equipe de bastidores da existência de todo mundo.
Mantém tudo funcionando, lembra das coisas, antecipa problemas, organiza, cuida, resolve.
E vai desaparecendo discretamente do próprio cenário.
Até que um dia alguém pergunta:
“Mas o que você gosta de fazer?”
E dá um branco.
Não porque você não goste de nada.
Talvez você só esteja há tanto tempo fazendo o que precisa que perdeu um pouco o contato com o que quer.
Isso pode voltar.
Sem revolução.
Sem largar tudo e ir morar numa cabana.
Sem acordar amanhã como uma nova mulher.
Talvez comece com alguma coisa pequena.
Um café em paz.
Uma música.
Uma caminhada.
Uma hora protegida.
Um “hoje eu não vou”.
Um “faz você”.
Um “isso pode esperar”.
Ou aquele glorioso:
“não sei onde está. Procura.”
Pequeno.
Mas poderoso.
Porque talvez você não precise fugir da sua vida para voltar a caber nela.
Talvez precise apenas parar de tratar a si mesma como a única coisa que pode ser adiada indefinidamente.
A rotina vai continuar.
A roupa vai sujar de novo. A louça também. Vai aparecer outro boleto, outro compromisso, outra mensagem, outro “mãe, cadê meu negócio?”.
A vida é meio insistente nesse sentido.
Mas, no meio dela, existe uma mulher que também precisa de espaço.
Você.
E não só quando sobrar tempo.
Porque, sejamos sinceras:
nunca sobra.
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