Tem uma armadilha silenciosa que muita mulher aprende a carregar sem perceber: a ideia de que só vai poder se sentir bem consigo mesma quando alguma coisa mudar.
Quando emagrecer. Quando ganhar mais. Quando tiver uma casa melhor. Quando encontrar alguém. Quando terminar uma relação. Quando a pele melhorar. Quando a carreira andar. Quando finalmente conseguir organizar a vida.
É sempre depois
Depois eu descanso. Depois eu me gosto. Depois eu uso aquela roupa. Depois eu tiro fotos. Depois eu começo a viver do jeito que gostaria.
Só que esse “depois” tem um talento impressionante para continuar andando alguns metros na nossa frente.
E talvez seja hora de perceber uma coisa: você não precisa chegar em algum lugar para começar a se tratar como alguém que já tem valor.
Ser suficiente não significa achar que está tudo perfeito
Acho importante dizer isso porque, às vezes, a ideia de aceitação parece sugerir que devemos simplesmente gostar de tudo e parar de querer mudanças.
Não.
Você pode olhar para a sua vida e reconhecer que existem coisas que quer transformar. Pode querer ganhar mais dinheiro, cuidar melhor do corpo, mudar de trabalho, aprender a colocar limites, reorganizar a casa, estudar, viajar ou começar de novo.
Querer crescer não significa que você é insuficiente agora.
Existe uma diferença enorme entre dizer “quero melhorar isso porque vai me fazer bem” e viver pensando “preciso melhorar isso para finalmente ser boa o bastante”.
Uma escolha nasce de cuidado.
A outra nasce de cobrança.
E, por fora, às vezes elas até parecem iguais.
Quantas coisas você já conquistou e rapidamente deixou de considerar suficientes?
Talvez você já tenha vivido isso.
Você desejou muito alguma coisa. Conseguiu. Ficou feliz por alguns dias e logo apareceu a próxima meta.
Era o emprego.
Depois virou o salário.
Era emagrecer cinco quilos.
Depois surgiram outros detalhes no corpo que precisavam ser corrigidos.
Era ter sua própria casa.
Depois ela precisava ser mais bonita.
Era encontrar alguém.
Depois a relação precisava parecer perfeita.
Não tem nada de errado em querer mais. O problema começa quando cada conquista perde valor assim que chega porque sua régua muda imediatamente de lugar.
Se você só se permite sentir suficiente quando tudo estiver resolvido, vai passar a vida em período de experiência consigo mesma.
Talvez você esteja tentando merecer coisas que não precisavam ser merecidas
Descanso, por exemplo.
Quantas vezes você pensa que só pode descansar quando terminar tudo?
Só que tudo raramente termina.
Sempre existe uma louça, uma mensagem, uma pendência, um projeto ou uma coisa que “dá para adiantar”.
O mesmo acontece com prazer.
Você compra uma roupa bonita e espera emagrecer para usar. Evita aparecer em fotos porque não gosta do rosto naquele momento. Adia uma viagem porque sente que ainda deveria organizar outras áreas da vida.
Aos poucos, a gente transforma viver numa recompensa.
Mas a vida não é o prêmio no final da lista.
É isso aqui.
Agora.
Inclusive enquanto algumas coisas ainda estão bagunçadas.
Você não precisa gostar de tudo em você para ficar do seu lado
Esse talvez seja um conceito mais realista do que “ame tudo em si mesma”.
Tem dias em que você não vai gostar do seu cabelo. Do corpo. De uma decisão. De como reagiu a alguma coisa.
E tudo bem.
Você não precisa estar encantada consigo mesma vinte e quatro horas por dia.
Mas pode continuar do seu lado em todas as situações.
Pode olhar para uma falha sem transformar aquilo numa sentença sobre quem você é.
Pode cometer um erro e pensar “isso não foi bom” sem concluir “eu sou um desastre”.
Pode desejar mudar alguma coisa sem começar uma guerra interna.
Talvez amor-próprio tenha menos a ver com se achar maravilhosa todos os dias e mais com não se abandonar justamente nos dias em que não se acha.
Cuidado com a versão imaginária de você
Existe também aquela mulher que mora na nossa cabeça.
Ela acorda cedo, come bem, pratica exercício, trabalha, cuida da casa, responde mensagens, lê, se arruma, economiza dinheiro, mantém bons relacionamentos e ainda tem disposição para fazer skincare antes de dormir.
Uma figura extraordinária.
Também completamente insuportável como parâmetro diário.
Talvez você tenha criado uma versão ideal de si e esteja usando uma pessoa imaginária para julgar uma pessoa real.
A mulher real cansa. Fica doente. Muda de humor. Tem imprevistos. Passa por fases.
Ela não fracassou por não conseguir manter o desempenho de uma personagem que só existe na imaginação.
Cresça, mas não se abandone no caminho
Eu quero continuar crescendo.
Quero aprender coisas, mudar outras, construir uma vida cada vez mais parecida com aquilo que desejo.
Talvez você também queira.
Mas quero fazer isso sem passar os próximos anos tratando quem sou hoje como uma versão provisória que precisa ser suportada até a chegada de uma mulher melhor.
A mulher que você será daqui a alguns anos está sendo construída por esta aqui.
A de hoje.
Com as ferramentas que tem, com aquilo que sabe, com aquilo que ainda está aprendendo.
Talvez ela mereça um pouco mais de gentileza.
Você já pode ocupar a própria vida
Use a roupa.
Apareça na foto.
Descanse.
Comece o projeto.
Aceite o convite.
Diga não quando quiser dizer não.
Compre as flores.
Faça planos.
Mude aquilo que realmente deseja mudar.
Só não coloque sua vida inteira em espera até se tornar alguém que considera digna de vivê-la.
Você pode continuar querendo mais e, ainda assim, reconhecer o que já existe.
Pode estar em construção e continuar inteira.
Pode ter coisas para melhorar e ainda ser suficiente.
Você não precisa se transformar em outra mulher para começar a ficar do seu próprio lado.
E talvez essa seja uma das mudanças mais importantes de todas.

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