Trabalhar. Ganhar dinheiro. Economizar. Investir. Cuidar da saúde. Fazer exercício. Cuidar do corpitcho — inclusive da ppk, porque aparentemente ela também entrou no cronograma de manutenção preventiva. Comer bem. Beber dois litros de água — dois não, três. Dormir oito horas. Manter a casa parecendo inspiração pro Pinterest. Dar atenção à família. Cultivar amizades. Responder as 47 mensagens que você abriu, pensou “respondo depois” e nunca mais voltou. Cuidar da pele. Ler. Estudar. Ter um hobby. Fazer terapia. Curar os traumas da infância. Organizar as finanças. Viajar. Viver experiências. Ter tempo de qualidade. Descansar. Meditar. Desenvolver inteligência emocional. Manter a chama do relacionamento acesa — e, pelo visto, estar sempre disposta a transar, porque além de tudo a libido precisa estar em dia. Ter projetos pessoais. Fazer os exames de rotina. Trocar a roupa de cama. Passar protetor solar. Comer proteína. Lembrar das vitaminas. Fortalecer o assoalho pélvico — sim, voltamos à ppk. E, claro, bater dez mil passos por dia.
Tudo isso antes das cinco da manhã, porque às quatro começa a rotina matinal da mulher de sucesso.
Às seis você já precisa estar plena, hidratada, sarada, sexualmente satisfeita, emocionalmente regulada e agradecendo ao universo enquanto prepara um café da manhã com exatos 32,6 gramas de proteína.
Aí você chega ao fim da terça-feira, percebe que conseguiu fazer aproximadamente 17% disso tudo e chega à conclusão que tu acha a mais sensata possível:
“Preciso me organizar melhor.”
Claro.
O problema só pode ser a sua organização!
Jamais a pequena lista de 38 tarefas diárias criada para uma pessoa que aparentemente não precisa trabalhar, dormir, pegar trânsito, lavar louça, procurar uma meia perdida, ouvir um áudio de sete minutos ou entrar no banheiro e pensar: “Tá, eu cago, escovo os dentes ou otimizo essa porra e faço os dois ao mesmo tempo?” E que, veja só o absurdo, às vezes ainda desperdiça dez minutos da própria existência sentada, olhando para o nada.
Mulher, faça as contas.
Tu acha mesmo humanamente possível dar conta de tudo isso?
Não?
Então por que diabos tu te cobra como se fosse?
Em que momento viver virou um projeto de alta performance?
Porque até as coisas que deveriam fazer bem começaram a entrar na lista das obrigações.
Descansar virou meta. Ler virou meta. Beber água virou meta. Dormir virou meta. Meditar virou meta. Sexo virou item de saúde. Caminhada virou número de passos. Comida virou cálculo de proteína. Até hobby agora parece precisar ser produtivo.
Você começa a fazer crochê para relaxar e, três semanas depois, alguém pergunta se você já pensou em abrir uma lojinha.
Não.
Talvez eu queira fazer um cachecol horroroso e ser feliz.
A gente transformou tanta coisa em desempenho que até o descanso precisa ser bem executado. Você não pode simplesmente ficar deitada. Tem que praticar “descanso intencional”. Não pode dar uma volta. Precisa “movimentar o corpo”. Não pode comer um pão com manteiga em paz porque em algum lugar existe uma mulher colocando cottage em absolutamente tudo.
E antes que pareça que o problema são essas mulheres: não é.
Faça seu skincare de doze passos. Corra sua maratona. Coma cottage. Acorde às cinco. Medite olhando o nascer do sol. Se isso deixa você feliz, maravilhoso.
O problema começa quando a rotina de uma mulher vira a obrigação de todas as outras.
Criamos uma mulher que simplesmente não existe
Tem uma mulher na internet fazendo academia às quatro da manhã.
Outra prepara marmitas saudáveis para a semana inteira.
Outra investe.
Outra lê cinquenta livros por ano.
Outra mantém uma casa impecável.
Outra viaja com os filhos.
Outra está sempre com o cabelo maravilhoso.
Outra abriu uma empresa.
Outra faz sexo cinco vezes por semana e aparentemente nunca está com sono.
Outra medita.
Outra acorda às cinco da manhã sorrindo — essa, particularmente, eu observo com certa desconfiança.
O problema é que nosso cérebro pega um pouquinho de cada uma e monta uma única mulher imaginária.
Pronto.
Nasceu a desgraçada.
Ela é linda, magra, esguia, tem bocão, é forte, inteligente, bem-sucedida, organizada, culta, emocionalmente madura, sexualmente resolvida, ótima mãe, ótima filha, ótima amiga, ótima profissional, cozinha, investe, viaja, lê, treina e provavelmente já bebeu um litro e meio de água enquanto você ainda está procurando a tampa da garrafa.
Basicamente, tem a aparência da Angelina Jolie, a eficiência da Miranda de O Diabo Veste Prada — ou da secretária dela —, a inteligência emocional de quinze anos de terapia e a vida financeira de quem nunca parcelou a fatura do cartão.
Um ser humano perfeitamente plausível, como você pode perceber.
E agora você se compara com ela.
Só tem um pequeno detalhe:
essa desgraçada não existe.
É um Frankenstein da mulher perfeita que nós mesmas montamos juntando pedaços da vida de dezenas de pessoas.
E ainda nos convencemos que conseguimos perder para ela.
Nem a Margot Robbie escapou dessa palhaçada
E tem uma coisa que eu acho maravilhosa — e um pouco revoltante — nessa história toda.
Margot Robbie já contou que passou os primeiros anos da carreira em Hollywood com uma baita síndrome do impostor. Ela chegava a eventos importantes pensando, basicamente: “Não acredito que me deixaram entrar aqui. Alguém vai perceber que eu não pertenço a este lugar e vai me expulsar de Hollywood.” Anos depois, ela contou à Vogue que finalmente percebeu que aquela carreira era real, que ela pertencia àquele meio e que não iria simplesmente acordar e descobrir que tudo tinha desaparecido. Vogue
E não foi uma insegurança passageira. Em outra entrevista, à Glamour UK, ela contou que ainda tinha momentos em que imaginava que as pessoas perceberiam que ela não era boa o suficiente e se perguntariam como diabos ela tinha chegado até ali. Quando perguntaram o que diria para a Margot de 17 anos, a resposta foi justamente que ela diria àquela menina que ela era boa o suficiente. Glamour UK
Agora eu pergunto:
porra, se a Margot Robbie entra numa sala achando que alguém vai descobrir que ela é uma fraude, nós fazemos o quê?
Porque a gente olha para ela e vê Margot Robbie.
Ela olha para dentro e encontra... ela mesma.
Com medo. Dúvida. Insegurança. Autocrítica. A sensação de que talvez ainda falte alguma coisa.
E é aí que a ficha cai.
A mulher que você olha e pensa “caralho, ela tem tudo resolvido” pode estar olhando para outra mulher e pensando exatamente a mesma coisa.
Talvez você mesma seja a mulher que alguém olha de longe e pensa:
“Nossa. Ela dá conta de tudo.”
Enquanto você está dentro do banheiro escovando os dentes e cagando ao mesmo tempo para economizar três minutos.
A gente vê o resultado dos outros e vive os próprios bastidores.
Aí fica difícil competir.
No fim, parece que existe uma fila gigantesca de mulheres olhando para a mulher da frente e pensando que ela recebeu o manual que esqueceram de entregar para nós.
Spoiler:
ninguém recebeu a porra do manual!
Vamos fazer umas contas bem básicas?
O dia tem 24 horas.
Só.
Ok?
24.
Não existe plano premium com 31.
Se você dorme oito, sobraram 16. Trabalha oito? Restaram oito.
Agora coloque banho, comida, deslocamento, louça, roupa, mercado, filhos, cachorro, boleto, consulta, mensagem da escola, ligação da mãe, farmácia, trânsito, aquela senha que você esqueceu e precisou redefinir pela vigésima vez, alguma coisa que quebrou dentro de casa e alguém gritando:
“Ô MÃÃÃE, ONDE TÁ MEU NEGÓCIO?”
Qual negócio?
“O negócio!”
Ah, sim.
Claro.
O negócio.
E no tempo que sobrou você pretende encaixar academia, estudo, relacionamento, amizades, autocuidado, projeto pessoal, organização financeira, lazer, sexo, terapia, oito horas de sono e paz interior.
Ah, sim.
E acabar com a pelanca do abano.
Mas talvez, só talvez, o problema não seja falta de disciplina.
Talvez seja matemática.
Se tudo é prioridade, nada é prioridade
Essa parte é chata porque a gente gostaria muito de descobrir um método mágico para encaixar tudo.
Mas escolher uma coisa significa, inevitavelmente, deixar outra meio capenga.
Tem fases em que o trabalho ocupa mais espaço. Em outras, os filhos precisam mais de você. Em algum momento pode ser a saúde. Em outro, dinheiro. Pode chegar uma época em que você finalmente consegue investir naquele projeto que ficou anos esperando.
E também existem períodos em que a prioridade é simplesmente não surtar.
Prioridade legítima, inclusive.
Talvez você comece a estudar e a casa fique mais bagunçada. Talvez esteja economizando e viaje menos. Talvez esteja cuidando da saúde e precise diminuir o ritmo no trabalho. Talvez esteja com crianças pequenas e aquele grande projeto avance na velocidade de uma tartaruga emocionalmente cansada.
Não significa que você fracassou.
Significa que você é uma pessoa com quantidade limitada de tempo, dinheiro e energia.
Porra!
Que conceito revolucionário, não?
E tem coisa nessa lista que talvez nem seja sua
Essa parte merece uma investigação.
Você realmente quer aquilo?
Ou viu alguém fazendo — ou alguém te falou que deveria fazer — e pensou que também deveria?
Porque a internet tem um talento impressionante para criar problemas que você não tinha cinco minutos atrás.
Você entra para procurar uma receita de bolo.
Vinte minutos depois descobre que deveria acordar mais cedo, aprender italiano, organizar a despensa, começar a correr, trocar seu shampoo, investir para a aposentadoria, fortalecer o core e comprar um aparelho para massagear a mandíbula.
Você só queria um bolo.
Antes de abrir o Instagram, estava tudo bem.
Agora aparentemente precisa reformular a existência.
Nem toda coisa interessante precisa entrar na sua vida.
Você pode achar cerâmica linda sem fazer um curso. Pode admirar quem corre sem virar corredora. Pode salvar uma receita e nunca fazê-la. Aliás, sejamos sinceras: boa parte das nossas receitas salvas nasceu para morrer ali.
Pode gostar da vida de alguém sem precisar copiá-la.
E pode querer alguma coisa para daqui a cinco anos sem transformar isso numa cobrança para esta semana.
Você também não precisa estar permanentemente em reforma
Essa talvez seja uma das partes mais cansativas de ser mulher hoje.
Porque além de administrar a vida, parece que precisamos administrar constantemente uma versão melhorada de nós mesmas.
Ser mais paciente. Mais organizada. Mais saudável. Mais bonita. Mais produtiva. Mais presente. Mais culta. Mais equilibrada. Mais próspera. Mais segura. Mais sensual. Mais zen, mais, mais, mais.
Daqui a pouco vamos precisar abrir um departamento de Recursos Humanos só para gerenciar nosso desenvolvimento pessoal.
E eu gosto da ideia de crescer. De aprender. De olhar para alguma coisa em mim e pensar: isso aqui eu quero mudar.
Mas será que podemos passar um mês sem iniciar uma reforma?
Será que dá para simplesmente viver um pouco?
Sem projeto verão, dieta da sopa ou sabe-se lá qual é o hype da vez, projeto produtividade, projeto independência financeira, projeto pele perfeita, projeto nova eu?
Às vezes a velha você só precisa de uma tarde livre.
Faça a lista. Depois tenha a coragem de não cumprir tudo
Eu gosto de listas.
Elas ajudam a tirar aquela feira livre de pensamentos da cabeça.
O problema começa quando a lista deixa de servir você e passa a avaliar você.
Porque aí um dia cheio de coisas feitas termina com uma sensação de fracasso por causa das três que ficaram faltando.
Algumas coisas serão feitas hoje. Outras amanhã. Algumas no ano que vem. Algumas perderão a importância antes de chegar a vez delas.
E algumas vão ficar tanto tempo naquela lista que talvez você finalmente perceba:
“Quer saber? Eu não quero fazer essa merda.”
Risque.
Não porque concluiu.
Porque desistiu mesmo.
Desistir de algumas coisas também abre espaço para viver outras.
Então acorda, mulher!
Olha a maluquice.
Você pega uma lista humanamente impossível, consegue cumprir uma parte dela e, quando não dá conta do restante, conclui que você é o problema.
A lista é impossível e quem leva a bronca é você.
Como assim?
Talvez você realmente não consiga trabalhar, prosperar, investir, treinar, comer perfeitamente, manter a casa linda, cuidar de todo mundo, cuidar da ppk, cuidar da pele, manter amizades, estudar, viajar, transar, meditar, desenvolver inteligência emocional, ter hobbies, perseguir seus sonhos e ainda dormir oito horas por noite.
Que surpresa.
Você é uma pessoa.
Não uma central de operações.
Então talvez algumas coisas sejam feitas muito bem. Outras mais ou menos. Algumas ficam para depois.
Uma ou duas podem ir solenemente para a puta que pariu.
E tudo bem.
A vida não é uma checklist que você precisa terminar para finalmente ganhar autorização para descansar.
Até porque, quando você marcar o último quadradinho, alguém vai aparecer dizendo que agora mulheres acima dos 35 precisam fazer exercícios específicos para o músculo que fica atrás da orelha.
E você provavelmente vai pensar:
“Puta merda. Esqueci da orelha.”
Então talvez a pergunta deixe de ser:
“Como eu consigo dar conta de tudo?”
E passe a ser:
“Por que diabos eu ainda acho que deveria?”
E agora eu quero saber: qual item da grande checklist imaginária da mulher adulta você gostaria de mandar oficialmente para a puta que pariu?

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