Você não precisa querer tudo agora

Tem uma espécie de ansiedade que nasce quando a gente percebe quantas vidas caberiam dentro da nossa.

Você quer cuidar melhor do corpo, ganhar mais dinheiro, deixar a casa bonita, viajar, estudar alguma coisa nova, ler mais, trabalhar menos, construir uma carreira, ter tempo para quem ama, organizar as finanças, descobrir um hobby, dormir direito, aprender inglês, fazer exercício, começar aquele projeto e, quem sabe, ainda ter uma pele radiante no processo.

Parece ótimo.

Até você perceber que está tentando viver todas essas versões de si mesma ao mesmo tempo.

E talvez parte do cansaço venha justamente daí.

Nem todo desejo precisa virar meta

Acho que a gente desaprendeu um pouco a simplesmente querer alguma coisa.

Agora tudo parece precisar virar objetivo, planejamento, prazo e execução.

Você comenta que gostaria de aprender cerâmica e daqui a pouco parece que precisa procurar um curso. Diz que gostaria de viajar e já começa a sentir que deveria estar guardando dinheiro. Vê alguém correndo e pensa que também deveria correr. Descobre uma mulher falando sobre investimentos e imediatamente lembra que suas finanças poderiam estar mais organizadas.

De repente, até as coisas que poderiam nos inspirar começam a nos cobrar.

Mas você pode achar uma ideia maravilhosa e não fazer nada com ela agora.

Pode querer aprender francês algum dia e continuar sem baixar aplicativo nenhum.

Pode sonhar com uma casa diferente enquanto cuida da casa possível.

Pode ter vontade de começar um negócio e reconhecer que neste momento sua energia está sendo usada em outra coisa.

Um desejo não perde valor porque ainda não virou plano.

Algumas coisas podem simplesmente esperar a vez delas.

A vida acontece por temporadas

Talvez exista uma expectativa silenciosa de equilíbrio em que todas as áreas da vida deveriam estar indo bem simultaneamente.

Só que eu não sei se a vida funciona assim.

Tem períodos em que o trabalho pede mais. Em outros, a família ocupa quase tudo. Há fases em que sobra energia para cuidar do corpo e outras em que conseguir dormir decentemente já seria uma conquista respeitável.

Às vezes é tempo de construir.

Às vezes de organizar.

Às vezes de ganhar dinheiro.

Às vezes de aprender.

Às vezes de cuidar de alguém.

Às vezes de cuidar de si.

E às vezes é só uma fase em que você está tentando atravessar a semana sem perder a chave de casa.

Não significa que as outras partes da sua vida deixaram de importar.

Significa apenas que nem tudo precisa florescer na mesma estação.

Escolher uma coisa também significa as vezes deixar outras esperando

Essa parte é menos bonita, mas bastante libertadora.

Toda escolha ocupa espaço.

Se você decide estudar à noite, provavelmente terá menos tempo para outra coisa. Se começa um projeto grande, talvez a casa fique um pouco menos organizada. Se está economizando para algo importante, talvez algumas vontades precisem esperar. Se está atravessando uma fase emocionalmente exigente, talvez sua produtividade diminua.

Não existe uma versão da vida em que todas as escolhas cabem sem custo.

E talvez amadurecer também seja aprender a escolher quais custos fazem sentido agora.

Isso não é desistir das outras coisas.

É colocar algumas delas numa prateleira imaginária e dizer: eu ainda quero você. Só não é a sua vez.

Cuidado com as vontades emprestadas

Tem ainda outra coisa que vale observar: nem tudo o que você acha que quer nasceu em você.

Algumas vontades aparecem depois de passar vinte minutos nas redes sociais.

Você estava perfeitamente satisfeita com sua cozinha até ver uma reforma maravilhosa. Gostava das suas roupas até assistir a um vídeo sobre “peças que toda mulher elegante precisa ter”. Nunca tinha considerado correr uma maratona até descobrir alguém dizendo que aquilo transformou sua vida.

E não há problema nenhum em descobrir desejos através dos outros.

A questão é perceber quais permanecem quando o estímulo passa.

Antes de transformar mais uma vontade em obrigação, talvez valha perguntar:

eu quero mesmo isso ou apenas gostei da vida de alguém por alguns minutos?

A resposta pode economizar dinheiro, energia e uma quantidade considerável de culpa.

Você pode mudar a ordem

Talvez você tenha imaginado que certas coisas aconteceriam primeiro.

Carreira, depois casa. Casamento, depois filhos. Dinheiro, depois viagem. Organização, depois descanso.

E a vida embaralhou tudo.

Normal.

Você pode mudar a ordem

Pode começar algo que imaginava fazer dez anos atrás. Pode adiar algo que jurava ser prioridade. Pode descobrir que um sonho perdeu importância. Pode encontrar outro no meio do caminho.

Planejar é ótimo.

Só não precisamos transformar nossos planos antigos em contratos assinados por uma mulher que já mudou.

O que merece espaço agora?

Talvez essa pergunta seja mais útil do que tentar descobrir tudo o que você quer da vida.

O que merece espaço agora?

Não para sempre.

Agora.

Talvez seja dinheiro.

Talvez seja saúde.

Talvez seja descanso.

Talvez seja um projeto que está pedindo coragem há anos.

Talvez seja sua família.

Talvez seja você.

Escolher uma prioridade não diminui as outras. Só impede que trinta coisas igualmente urgentes disputem a mesma quantidade limitada de tempo, dinheiro e energia.

E existe uma tranquilidade inesperada em perceber que você pode construir uma vida aos poucos.

Não precisa resolver tudo neste ano.

Nem neste mês.

Nem nesta segunda-feira — coitada da segunda-feira, já colocamos responsabilidade demais nela.

Você ainda pode querer muitas coisas.

Pode ser ambiciosa, curiosa, cheia de planos e continuar sonhando grande.

Só não precisa transformar todos os seus sonhos em urgência.

Algumas coisas são para agora. Outras são para depois. E algumas você ainda vai descobrir que nem queria tanto assim.

Talvez uma vida inteira exista justamente para isso: para que a gente não precise viver tudo de uma vez.

E você? Se pudesse escolher uma coisa para receber mais espaço na sua vida agora, qual seria? 

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